Eu digo não ao não: é proibido proibir!

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Eustaquio02Li, outro dia, que uma biografia não autorizada do ator Paul Newman fez revelações que chocaram a opinião pública norte-americana, ao contar que ele seria bissexual. Mais: cita uma extensa lista de atores com quem ele teria se envolvido. A família repudiou, publicou nota a respeito, mas não fez que nem o Roberto Carlos: o livro continuou à venda nas livrarias. Não conheço o livro, não sei que outras revelações traz. Consta que Newman era um ator engajado, que tocava diversos projetos de cunho social, mas não vi nenhuma referência quanto a isso na nota que li. Entendo que pode haver biógrafos — e principalmente leitores — que não se interessam por esses detalhes, preferindo vasculhar o íntimo da vida das pessoas famosas, em busca de detalhes mais sórdidos. Por isso, há biografias e biografias. Algumas são escritas apenas para satisfazer essa expectativa, sabem que há leitores que só se interessam por esse tipo de informação.

Mas se valer disso para impor proibições à publicação de biografias, sob o argumento de que o biografado é o dono de sua vida, não tem nada a ver. Ele pode ser o dono de sua vida, mas não é o dono da história. Percebo também que muitas dessas proibições partem de pessoas do meio artístico, em que, como todo mundo sabe, separações e relacionamentos efêmeros, se não acontecem com a mesma frequência que no mundo das, digamos, pessoas normais, soam como se fosse rotina. Por causa da exposição excessiva e, muitas vezes, equivocada. Não tenho muito saco para biografias, mas já li algumas. Li a autobiografia do Tennessee Williams e a do Luchino Visconti. O primeiro não omite detalhes de suas agitadas aventuras sexuais, mas isso, nem de longe, é o que mais interessa no livro. Williams fala com paixão dos bastidores do teatro americano, de seus fracassos e sucessos, sob uma ótica irônica e divertida. A do Visconti não se detém nesses aspectos, mas cita um rico panorama da Itália sob o domínio fascista e no pós-guerra, quando se iniciou a penosa recuperação de um país destruído e o neorrealismo se impõe como um dos momentos mais criativos do cinema.

Outra biografia que li foi a que Myra Friedman, que era agente de Janis Joplin, escreveu pouco depois da morte da cantora — “Enterrada Viva”. Do livro constam as bebedeiras, as constantes viagens ao mundo das drogas e os tumultuados romances de Janis com homens e mulheres. Mas, ao relatar cada um desses fatos, Friedman nada mais faz do que tecer um comovente painel da atormentada personalidade da cantora, de suas inseguranças, carências e medos. E de seu gênio, de sua importância. Escrever sobre Janis Joplin e não mergulhar nesse universo seria impossível. Depois do livro, comecei a ouvir Janis Joplin de outra forma.

Então, vem o Roberto Carlos e começa a proibir. E vem também o Caetano Veloso, que um dia disse que era proibido proibir: “Eu digo não ao não”! Num dos discos do show Phono 73, que a então gravadora Phonogram (hoje, Universal) fez para reunir seu elenco milionário, Chico Buarque teve problemas com a censura: “vamos ao que pode”, disse na abertura de “Baioque”. Hoje, nós é que vamos ao que pode.

Esse ranço entre celebridades e a mídia vem de longe. Aqui, dizem que começou nos anos de 1940, com a Revista do Rádio, onde havia até uma coluna especializada em fofocas, “Mexericos da Candinha”. Esse coluna, por sua vez, se inspirava nas de duas jararacas americanas, Hedda Hopper e Louella Parsons, fofoqueiras que tinham colunas em dezenas de emissoras de rádio e jornais espalhados pelos Estados Unidos. Eram temidas em Hollywood até mesmo pelos dois maiores big shots da indústria cinematográfica, Louis B. Mayer (da Metro) e Darryl Zanuck (da Fox). Orson Welles, que não aturava esse tipo de gente, meteu o pé na bunda de Hopper, na avant-première de “Cidadão Kane”, na vista de todo mundo. Consta que as duas, Parsons e Hopper, destruíram carreiras, casamentos e chegaram a levar muita gente até ao suicídio. Aumentavam as coisas e eram maldosas, mas nem sempre inventavam.

Quando trabalhava na Globo, via, lá no Rio de Janeiro, como era difícil o relacionamento entre os atores e os repórteres que eram obrigados a fazer cobertura do meio artístico para as revistas de TV. Nas redações, a orientação que eles recebiam era essa mesma, correr atrás de fofoca. Nem precisava ter algum resquício de verdade. Sei disso, porque fiz estágio na Bloch e eles tinham uma revista que era especializada nisso, a “Amiga”, onde rolava fofoca o dia inteiro. Por isso a revista também recebia um processo atrás do outro… Hoje está mais fácil conseguir essas informações, porque as pessoas se expõem mais. A concorrência é maior e, além disso, parece que há uma espécie de “celebrity ranking”, onde as inferiores querem, a qualquer custo, chegar ao topo. Então, fazem de tudo para acontecer e, quando finalmente acontece de chegar lá, partem para censurar seus biógrafos…

Em seu livro “A arte de enganar”, Kevin Mitinick ressalta que a maioria das pessoas que anda se expondo na internet acha que não será enganada, com base “na crença de que a probabilidade de ser enganada é muito baixa”. Há quanto tempo já não vemos isso? O que querem os jogadores famosos quando se masturbam diante de uma webcam? E os atores e modelos desfilando nuas e, depois, reclamando da falta de privacidade? É por isso que a internet se tornou um elemento fundamental para qualquer biógrafo esperto. Blogs sensacionalistas estão por toda parte. Muita coisa é mentira, mas também tem muita coisa que é verdade. E é um erro achar que tudo que está na internet é virtual. Em minha opinião, não tem nada de virtual. Os fatos, os dados e as pessoas são reais. Quando a pessoa vai para o facebook e abre o jogo, pensando que está falando apenas para amigos e familiares, nem de longe pensa que essas informações estão se tornando públicas. Se são do conhecimento de todos, então, são dos biógrafos também.

Cheguei a ler a biografia do Roberto Carlos e não vi nada de fofoca. Vi a entrevista dele no “Fantástico” e, mais uma vez, não entendi essa resistência toda em admitir que tem perna mecânica. Conheço dezenas de pessoas que têm e não estão nem aí. Não sei o porquê, mas acho que essa história de perna mecânica é só um pretexto para encobrir outros fatos. Com ou sem perna mecânica, Roberto Carlos, muito mais por ser famoso do que por qualquer outra coisa, sempre foi um homem cobiçado pelas mulheres. Sabe aquela história de uma que, na época, era solteira, mas que agora tá casada com o melhor amigo, que se casou sem saber do rolo? No caso do Chico, do Caetano, do Gil, só me ocorre pensar nisso… Roberto Carlos, nos anos de 1970, foi muito criticado por não fazer oposição, pelo menos publicamente, à ditadura militar. Será que tem coisa que a gente não sabe?

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Bruno Block

    Tenho que discordar do professor. Famoso ou não, não gostaria de ver minha vida contada por outra pessoa com histórias muitas vezes sem um fundo verídico. Outra coisa, todo mundo já fez coisas das quais nos envergonha, seja no calor do momento ou mesmo pensado, mas que hoje você mudou a forma de pensar. Agora imagina essa biografia ser de um parente falecido que não pode se defender e pra piorar, conta coisas que a família nem ao menos sonha que aconteceu, como traição ou coisa pior.

  • Maria Cecília

    Adoro a frase: Tudo na vida tem consequências. As pessoas se tornam públicas por diversão, vocação até mesmo por que é o que sabem fazer, mas o comportamento dessa exposição vai com você para o resto da sua vida. Não quer que falem de você, não de motivos, mas censurar porque alguém publicou fatos sobre sua vida que qualquer um acharia em qualquer lugar na internet, é ter muito tempo e poucas opções do que fazer com ele. Sou fã, desde adolescente, do jogador Leonardo (Lateral da copa do mundo de 94). Leonardo é um cara engajado, ajuda instituições, tem família e construiu uma bela carreira mesmo depois de parar de jogar, mas alguém tem dúvida que, na primeira chance de escreverem sobre ele, a referência será que ele acertou uma cotovelada num jogador dos EUA durante a copa do mundo? É triste, mas ele fez e tá ai pra quem quiser ver. Mais uma coisa, a escolha de ler coisas boas e porcarias é de cada leitor, então as vendas, a publicidade de cada livro depende mais da gente do que do autor em si.