A profissão mais antiga do mundo também é cultura

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Eustaquio02Draguixa é motorista de táxi. Quer dizer, o táxi é da mãe dela, mas as duas se revezam ao volante. Por ser mais nova, dirige à noite, quando há mais perigo. Draguixa, que na verdade se chama Eurípedes, não se assume travesti nem drag queen, mas um ser à parte, um transformista, um mutante. E tem muito orgulho disso, pois diz que sua forma de viver é “apenas mais uma, entre tantas”. E nela — jura de pés juntos — não se inclui a prostituição. Se pudesse, não trabalharia com táxi, mas, por razões obvias, rala até de madrugada para ajudar nas despesas da família e pagar o curso de teatro. No táxi, tem que andar normal, quer dizer, não pode sair fantasiada de drag queen, sob pena de despertar a atenção da BHTrans. Diz que não há nenhuma lei que proíba travestis e drag queens de dirigirem assim, mas em tempos como o atual, o melhor é não se arriscar, para não prejudicar o negócio da mãe. Draguixa, que também não quis saber de explicar a origem do nome, está se preparando para a Copa. Fez curso de espanhol e está avançando no inglês, além de se inscrever em diversos sites que prometem serviços diferenciados durante o evento. Discreta, não quis saber de entrevistas, mas permitiu que sua amiga e empresária Carolaine Baxter falasse por ela.

— O Brasil é um país tropical, que permite muitas loucuras no carnaval, mas é careta durante o ano. E quando o assunto é futebol, então, a caretice redobra — teoriza Carolaine, justificando a necessidade de ter motoristas que sejam travestis ou drag queens para atender ao público gay. Segundo ela, a fama dos motoristas de táxi brasileiros na Europa é péssima. Lá, são considerados autoritários, arrogantes e machistas. Draguixa, no entanto, não é exceção. Fez aulas particulares com uma professora de espanhol e agora está fazendo com uma professora de inglês, que atende ainda uma verdadeira legião de garotas de programa, todas já bem mais adiantadas que ela. As aulas, que priorizam a conversação, abordam inúmeras situações do cotidiano, com ênfase nas relações interpessoais.

— As meninas aprendem boas maneiras; como se sentar à mesa de um restaurante de luxo, tornam-se aptas para “decifrar” e traduzir cardápios, orientando os clientes. É uma forma de promover o turismo, mas, por se tratar de profissionais do sexo, ninguém vê isso…

Pelo visto, uma orientação bem diversificada, que envolve ainda questões de segurança e saúde, ou que tenham a ver com infraestrutura de serviços, tipo táxi, motéis, compras, cultos religiosos, casas noturnas, points turísticos, casas de câmbio e por aí vai. Carolaine, que não se cansa de elogiar a eficiência da professora, que soube definir mais de 30 situações do cotidiano em seu trabalho, diz que Draguixa e “as outras moças” têm uma formação parecida com a das gueixas. Ou seja, estão aptas a prestar serviço completo ao cliente. Para se ter uma ideia de como elas estão levando essa Copa do Mundo a sério, basta saber que estão recebendo também noções de higiene e até de primeiros socorros, o que é uma ideia até legal, se a gente pensar que há tantos assaltos acontecendo diariamente por aí. Draguixa admite que já sabe dizer bom dia, boa noite, por favor, obrigado, de nada, posso ajudar e mais um rosário infinito de expressões de gentileza, em diversos idiomas: alemão, inglês, francês, espanhol, italiano e até japonês. Precavidas, não se ligaram ao sorteio das chaves para saber quem jogaria em Belo Horizonte: “Tudo que vier é lucro”, afirma Carolaine, animadíssima. Experiência para tanto não lhe falta, pois viveu quatro anos na Europa, ralando em Barcelona, Lisboa, Milão, Roma e Madri. Por isso mesmo, assume que aprendeu a “delinear perfis” de turistas com rara eficiência.

— Em termos de sexo, os franceses são os piores turistas, por serem pão-duros. Os alemães são mais liberados, seguidos de perto dos italianos e dos espanhóis. Os portugueses são os piores, porque se acham os reis da cocada preta. Os japoneses são mais travados, mais sexualmente reprimidos.

Croatas, russos, nigerianos e argentinos, por enquanto, ainda são uma incógnita. Carolaine entende muito de marketing, embora nunca tenha feito algum tipo de curso nessa área. Diz que tudo é uma “questão de feeling”. Como se espera que a polícia distribua muita publicidade alertando os turistas quanto ao risco de pegar garotas de programa e travestis na rua, o negócio, segundo ela, é atender em casa própria ou em domicílio. Ou nos hotéis e motéis.

— Aí complica um pouco, porque os hotéis ainda insistem em barrar os travestis. Claro que tudo é coisa de fachada, por que, se o príncipe Harry pintar por aqui e pedir um travesti, que hotel que vai ser bobo de barrar?

Carolaine não entende porque as garotas e os garotos de programa, segundo ela, passam numa boa pelas portarias dos hotéis, enquanto os travestis continuam discriminados.

— Então, a solução é receber os clientes em casa, com todo o conforto e segurança — teoriza com ar de quem realmente sabe do que está falando.

Draguixa tem apartamento no hipercentro de Belo Horizonte e, no momento, está redecorando o imóvel, pensando nos clientes da Copa, mas também no futuro. Em vez de sexo, quer contribuir para alavancar nosso turismo e oferecerá bebidas e até algum tira-gosto, “coisas finas, que não sejam frituras nem chips, pois os europeus são exigentes no quesito gastronomia”. Por isso, ela e Carolaine também já tomaram algumas aulas com um enólogo para não dar vexame na hora de escolher entre um malbec ou um cabernet. As garotas de programa e os travestis querem contribuir para amenizar a imagem de país violento que pesa sobre o Brasil e sobre eles mesmos. Draguixa, por exemplo, pensou em redecorar a casa com muito artesanato regional e está selecionando músicas para criar uma trilha sonora à base de música brasileira, para divulgar o nosso querido cancioneiro entre os turistas.

— Vamos divulgar Lobão, Caetano, Gil, Chico Buarque e Tom Jobim para os turistas. Quem pode querer coisa melhor?

Carolaine, que é formada em turismo, ao mesmo tempo em que elogia a rígida preparação profissional de sua trupe, vê com alguma relutância a hipótese de a cidade receber tantos turistas como se anuncia. “Ainda mais agora que o estádio do Corinthians desmoronou, a imagem do Brasil está mais por baixo do que rodapé” — compara. Afinal, sabe que seu negócio é um negócio de risco, pois pode ser que também não pinte nenhum turista por aqui e todo o investimento vá por água abaixo. Se toda essa preparação der em nada e trouxer prejuízo, pensou até em entrar na Justiça, mas, contra quem? A FIFA?
Parece difícil, mas como a profissão mais antiga do mundo vem se mostrando, ao longo dos anos, também uma das mais rentáveis,

Carolaine alugou apartamento muito próximo ao centro. ”Coisa fina, com maquininhas Cielo, bebidas importadas e salgadinhos finos — tem até receitas da Palmirinha”. Além disso, transporte seguro e eficaz, mediante convênio com dois motoristas de táxi. E se não pintar turista?

— Bom, aí a culpa não é nossa. A gente já tá em ritmo de primeiro mundo, mas a cidade anda em ritmo de Haiti…

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

 

  • Maria Cecília

    Show!! O que mais adoro nelas são os nomes. Criativos e nada comuns… Que viva a diversidade!!!