Diário da Copa: “Meu reino por um caixa eletrônico”

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Eustaquio02Assaltos se tornaram rotina nos lugares mais inusitados da cidade. Peguei um táxi no Minas Shopping e o motorista me contou que a filha dele foi assaltada dentro do Shopping Cidade, na escada rolante. Na Cidade Nova, minha sobrinha foi assaltada pela segunda vez, em menos de um mês. Perto do shopping também. Por isso, muita gente evita andar com dinheiro. Tenho uma amiga americana que morou algum tempo em Belo Horizonte — na Barroca e em Santa Tereza —, onde foi assaltada duas vezes. Tomou pavor da cidade e foi morar em Santa Catarina, que também já não é tão santa assim, mas ainda é um pouco melhor que qualquer outra capital brasileira. Semana passada voltou a Beagá, para rever amigos. Na Cidade Nova, passou em duas agências do Santander e não conseguiu sacar dinheiro no caixa eletrônico. Estavam fora do ar. Desceu até à loja da Drogaria Araújo e também não (havia um cartão quebrado dentro do drive). Já em pânico, foi até a loja do Epa e, por fim, depois de uma peregrinação de mais de uma hora, teve como fazer o saque.

— Como é que vai ser na Copa do Mundo? — quis saber.

Bem, na Copa, se é que a cidade vai mesmo receber os turistas que espera, vai complicar um pouco mais. Eu mesmo já enfrentei e vivo enfrentando sérios problemas com caixas eletrônicos que não funcionam e já tive até que passar pelo vexame de pagar táxi com cheque. O caixa eletrônico do Santander no Shopping Del Rey, então, parece que raramente funciona. Marcel Drummond, um amigo que trabalha com turismo, me contou que essa é uma de suas maiores preocupações.

— A Cidade Nova tem esse polo hoteleiro, mas tem alguma casa de câmbio por perto? Como é que os turistas vão fazer pra trocar dinheiro?

Pensei nisso também. Não acredito que a padaria Bento XVI, o Bar do Magal ou o Boteco da Jorgina, até julho, estejam prontos para operar com outras moedas. Receber em dólar e dar o troco em reais? Como é que vai ser? Marcel prevê o caos. Laura Müller, minha amiga americana, também. “Não é só aqui, em Florianópolis é a mesma coisa”. Tenho um amigo que é gerente de banco e, certa vez, me contou que alguns desses serviços são terceirizados. Por isso dão tanto problema. Pergunto se os bancos não fiscalizam esse pessoal que terceiriza. Ele não sabe, mas pelo visto não devem fiscalizar. Isso demonstra de uma forma muito clara, muito transparente, o cuidado que têm para com o cliente. Nós, brasileiros e brasileiras, mestres incontestes do jeitinho, já aprendemos a nos virar, mas e os pobres coitados dos turistas que se aventurarem por aqui? Nos poucos mais de cinco meses que faltam para a danada da Copa, o país terá como resolver esse (entre outros tantos) problema de infraestrutura? Não levo a menor fé. Falo aqui da Cidade Nova porque é o bairro onde moro e região que conheço melhor. É de um atraso que não tem tamanho. Nada funciona. O melhor exemplo está na própria avenida principal, Cristiano Machado, com uma obra que se arrasta há anos e não dá o menor sinal de chegar ao fim. Com a avenida em obras, o trânsito piora, os pedestres ficam mais vulneráveis e a segurança, que já era mínima, cai de vez. No trecho da avenida em que fica a maioria dos postos bancários, nunca vi um guarda. Mas sei de dezenas de histórias de gente que já foi assaltada lá. E são assaltos cada vez mais violentos. Neguinho já sacou há muito tempo que a falta de policiamento é garantia certa de impunidade, por isso assalta à luz do dia. Hoje mesmo cheguei a ver, de dentro do táxi, um rapaz ser assaltado ali perto do Ouro Minas. E ninguém ajuda. Todo mundo morre de medo. Os taxistas me contaram que isso já virou rotina nas imediações do hotel. Na Savassi, a mesma coisa.

Tudo isso tem tirado o sono de meu amigo Marcel Drummond, que anda em profunda depressão, desde que foi obrigado a mentir para os turistas, dizendo que a cidade é segura, bem policiada e conta com boa infraestrutura de serviços. A seu pedido, até o maldito evento que começa em junho, passarei a resenhar algumas considerações ”copistas” nesse espaço. Marcel me mandou dar também às chamadas autoridades (in) competentes, para que aprendam com as garotas de programa. Segundo os taxistas, a maioria delas está levando essa Copa muito a sério. Estão craques no inglês e quase todas já estão andando com a maquininha da Cielo dentro da bolsa, para resolver a questão do pagamento. Dois taxistas me garantiram que até os travestis já embarcaram nessa onda. Enquanto a Copa e os turistas não chegam, o treinamento pode ser feito diariamente no alto da Afonso Pena. Elas aceitam tanto no débito quanto a crédito!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.