Deusa sobe ao Olimpo Municipal

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Eustaquio02Deusa é cabeleireira lá no bairro Palmares, não muito longe do Hotel Ouro Minas. Uma figura popular, daquelas que têm um milhão de amigos, não perde uma festa e ainda torce pro Galo. Tenho uma amiga que é cliente dela e, por isso, acabamos nos encontrando um dia desses. Quando soube que sou jornalista, me fez um punhado de perguntas. É que Deusa, que tem 38 anos, foi convidada a se candidatar a uma vaga na Câmara Municipal de Belo Horizonte, nas próximas eleições.

— Quem convidou?

— Um rapaz de terno, todo cheiroso. Disse que é especialista em marketing e que ficou sabendo que tenho muitos amigos. Então, resolveu me entrevistar pra ver se eu tenho perfil de vereadora.

Deusa me conta que não tem a menor noção de como deve ser esse perfil. Nem de onde surgiu o tal marqueteiro. Por orientação dele, não quis me dizer de qual legenda partiu o convite pra se candidatar. Só garantiu que não foi do PT nem “daquele outro, que tem nome de passarinho”. Mas disse que é um partido grande, “cheio de gente que parece ser muito importante”. Para ter seu perfil delineado pelo expert em marketing, teve que responder a diversas perguntas — de seu prato favorito à santa de sua devoção. Contou que o rapaz quase teve um troço quando ela contou que é devota da Escrava Anastácia!

Apesar de esperta, Deusa ainda tinha muitas dúvidas sobre qual a verdadeira função de um vereador. Em sua opinião, eles deveriam votar algumas leis, mandar tapar buraco de rua, arranjar empregos para os mais chegados, distribuir cesta básica e dar feijoada pro povo em véspera de eleição. Com certeza, fazem outras coisas também, mas, dessas, ela assume que não tem muito conhecimento. Sabe apenas que eles recebem um ótimo salário — “uma grana preta”.

Aliás, muitas dessas dúvidas de Deusa cresceram ainda mais, depois que ela acompanhou a invasão da Câmara Municipal e viu os manifestantes doidos pra torcer o pescoço dos vereadores — “Fiquei muito assustada com isso”. O rapaz do marketing, no afã de arrebanhar prováveis candidatos para seu partido, disse que não é bem assim. Assumiu que, de fato, a Câmara Municipal está vivendo dias muito ruins, está vivendo seu inferno astral, como de resto toda a classe política do Brasil, porque houve muitos escândalos, recentemente. “Foi o lance daquele vereador com as coxinhas que melou tudo”, confiou-lhe o rapaz, admitindo que também houve outras tantas estratégias mal desenvolvidas, como legislar em causa própria aumentando o salário e faltar às sessões sem dar a mínima pros colegas mais sérios, atrasando as votações de projetos importantes. Deusa, que de boba não tem nada, contou que ela mesma já foi à Câmara, com algumas amigas, pedir mais segurança para seu bairro, mas como nem se lembrou do nome do vereador em quem votou nas últimas eleições, a coisa ficou por isso mesmo…

— Deve ter sido por isso que não fomos atendidos. A insegurança aqui no bairro está cada vez pior.

Esse foi mais um estímulo para as investidas do marqueteiro. “Na Câmara, você terá chance de fazer muita coisa pelo bairro Palmares”, disse ele, enquanto convencia Deusa a “modificar” seu perfil. Confesso que fiquei curioso quanto ela tocou nesse item.

— Modificar de que jeito?

— Pra começar, disse que não posso falar que sou devota da Escrava Anastácia, porque isso tira o voto dos evangélicos…
Católica e umbandista, Deusa não pensa em abrir da devoção à Escrava Anastácia, de quem diz já ter presenciado um milagre que mudou sua vida. Por causa disso, pelo menos até agora, estava desistindo da ideia de ser vereadora.
— Entre minha santinha e a Câmara, não penso duas vezes…

Ma as mudanças vão além. Se a promessa do dinheiro era boa — “você sabe quanto ganha um vereador?” —, ter que se assumir outra pessoa, desistir de si mesma e de tudo que sempre lhe foi tão caro, parece demais para uma pessoa tão simples e de bem com a vida que nem Deusa, que tem curso de professora, mas se especializou em beleza quando descobriu que trabalhar em salão dava um pouco mais de dinheiro, além também de ser bem mais divertido.

— Só de não ter que aturar aluno…

Mas Deusa terá que abrir mão de outros prazeres. Das piadas, da mania de rir bem alto, da cachacinha com torresmo na mesa do boteco Santa Rita e, principalmente, das festas no terreiro de candomblé da Baiana, sua amiga de fé, lá no bairro da Boa Vista. Só que as investidas do jovem marqueteiro continuaram e tudo isso levou Deusa, de repente, a investigar a vida dos vereadores, pelo menos para justificar o “não” que pensava dizer. Seguindo o conselho de uma amiga mais velha, lá mesmo do salão de beleza, foi visitar os manifestantes que ocuparam a Câmara, só pra ver como é que era. No começo, ficou espantada com a balbúrdia. Muita sujeira, lixo, muita gente namorando sem a menor cerimônia, e o povo todo precisando urgentemente de banho. Mas ajudou a comprar o pão de forma e o desodorante solicitados por uma ocupante magrinha e com olhos de fome, que lhe confessou estar passando muita necessidade, mas que a ocupação do espaço era um ato de cidadania que justificava o sacrifício.

— Primeiro, a gente se manifestou na rua; a ocupação foi o passo seguinte, pra mostrar que não estamos de acordo com a atuação da câmara.

Sobre a atuação da Câmara, Deusa ainda sabia muito pouco. Não conseguia entender o porquê de os vereadores faltarem tanto — “eles não recebem pra isso?” —, de não darem atenção aos projetos de que a cidade tanto necessita, em vez de perder tempo distribuindo títulos de cidadão honorário e trocando nome de rua, enquanto a capital vive mergulhada num caos que não tem fim, com problemas de moradia, obras que não chegam a lugar nenhum e o povo cada vez desconfiando mais que ladrão e político é a mesma coisa. Também não acreditou quando lhe contaram que os vereadores chegaram a gastar quase R$ 62 mil em coxinhas, beneficiando a firma da madrasta de um vereador.

— Quem será que come tanta coxinha assim, gente?

A manifestante acampada na Câmara também lhe contou que, por pouco, os vereadores não se deram um reajuste salarial de quase 70%.

— Só não deram o aumento porque a gente fez uma campanha inédita nas redes sociais e o prefeito Márcio Lacerda foi obrigado a vetar a proposta deles, com medo da reação popular…

Com a cabeça a mil por hora, Deusa está refazendo conceitos. Começou a compreender, pela primeira vez na vida, o que é romper paradigmas. Ela tem encontro marcado com o marqueteiro no início de setembro e já sabe pelo menos um pouco do que vai dizer a ele. Enquanto isso, voltou mais três vezes ao camping municipal para levar leite, pão e analgésicos para a nova amiga que fez lá e que, pelo visto, passou a ser sua conselheira política. Por causa dela, Deusa vai aderir ao facebook, já sabe o que é mídia ninja e não cai mais no noticiário da TV — “nem no da Globo nem no da Record”. E também briga com quem chama manifestante de baderneiro ou de vândalo. Sem falar que está examinando profundamente o histórico dos partidos políticos. Pelo sim, pelo não, quem sabe sair candidata a uma vaga na Câmara Municipal não seja uma boa ideia? Seu raciocínio é simples. “Afinal, alguém tem que trabalhar nesse país, não?”. Já não se fazem Deusas como antigamente…

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.