Belo Horizonte – desculpa não tira culpa

2
413

Eustaquio02Dois amigos meus, italianos e jornalistas, pedem referências sobre Belo Horizonte. Um deles estará aqui para cobertura da Copa das Confederações e o outro vem pra fazer outro tipo de matéria. Qualquer coisa a ver com religião, o que inclui também educandários — os famosos internatos. Além do Caraça, talvez o mais famoso de todos, me lembrei de Cachoeira do Campo, do Arquidiocesano de Ouro Preto, por onde passei, o das irmãs vicentinas, em Mariana, e do Colégio Nossa Senhora das Dores, em Itabira. Não tenho notícia de internatos masculinos em Belo Horizonte, mas os colégios Imaculada, Izabela Hendrix e Pio XII, entre outros, também eram famosos…

Por pouco não mandei pro Luigi, que vem cobrir a danada da Copa, notícias do jogo de estreia do “novo” Mineirão. Mas aí, pensei bem e recuei: achei que seria muita sacanagem minha sujar assim logo de cara a barra do Consórcio Arena. Ainda mais depois que vi a cara do presidente desse consórcio, pedindo desculpas na televisão. Foi aí que reparei que, ultimamente, muita gente tá entrando nessa de pedir desculpas. E os caras falam a sério! Fazem tudo errado e, depois, na maior cara de pau, vêm pedir desculpas. Depois que pedem, acham que a barra ficou limpa, que tá tudo legal. Mas, quem falou que desculpa tira culpa? Um amigo meu, cruzeirense, foi ao Mineirão pra assistir o clássico. Saiu de lá furioso. Diz que não volta nunca mais. E, a quem interessar possa, não aceitou as desculpas do presidente do Consórcio Arena — “o que fizeram foi uma grande sacanagem com o público”. Concordo plenamente.

Algumas vezes como jornalista — e mais ainda como torcedor —, também frequentei muito o Mineirão. Ficava na arquibancada, perto do Bar 20, da Ilza, que tinha um ótimo sanduíche de pernil e cerveja sempre gelada no ponto. Depois, perdi a paciência. Acho muito estranho ver jogo no Mineirão sem poder beber cerveja… Voltemos aos italianos. Luigi tem algumas informações sobre Belo Horizonte, mas queria saber mais detalhadamente dos aspectos culturais da cidade, como os museus, as obras de Oscar Niemeyer e o campus da UFMG. Os italianos, que vivem em cidades que são verdadeiros museus a céu aberto, levam isso muito a sério. Ele nem perguntou se é verdade mesmo que aqui é que é a famosa capital dos bares. Ajudei no que pude. Mas não tive como fugir do lugar comum: Mercado Central, Savassi, gastronomia diversificada… O que mais? Evitei falar do trânsito ruim, das obras que ninguém sabe se estarão terminadas até lá e da falta de segurança, que se tornou o principal ponto de referência de todas as grandes cidades brasileiras. Pra que assustar o coitado?

O outro jornalista, Gianfrancesco, terá, sem dúvida, tarefa mais agradável. Vai visitar as cidades históricas, em busca de fatos e fotos das igrejas, das obras do Aleijadinho, dos antigos internatos. Falei muito do Colégio Nossa Senhora das Dores, de Itabira — que nem sempre é relacionada nesses roteiros. Minha mãe, minhas tias e minhas irmãs passaram pelo Colégio Nossa Senhora das Dores, e sempre falaram disso com orgulho. Eu também passei por lá, antes da primeira comunhão, para as aulas de catecismo com a Irmã São Luís — sem essas aulas, ninguém comungava! O prédio antigo do colégio, que já foi derrubado para dar lugar a uma construção mais moderna (e mais feia), era a principal referência do conjunto de edifícios que dominava a rua Santana. Eles impressionavam pela grandiosidade, pela eficiência e pelo rigor. Ali, tudo funcionava. Coisas que não rolavam nas outras escolas… Quem já passou pela experiência de, um dia, ter vivido em internatos religiosos sabe do que estou falando. Mandar filho pra internato era tradição em minha família. Várias primas estudaram nesses colégios. Dois primos meus amargaram o Caraça e o de Cachoeira do Campo. Eu fui para o Arquidiocesano, em Outro Preto, e a única coisa de que me lembro era de, todo dia, perguntar a mim mesmo: “O quê que eu tô fazendo aqui?”. Isso, na hora de acordar, às seis horas da manhã, quando tocava o maldito sino. Claro, algumas lembranças boas até que ficam, como algumas amizades e coisa e tal, mas no geral… Pra saber, só quem passou por lá…

Percebo que a história desses internatos também é, muitas vezes, ligada apenas a nome de figurões. Tipo: “Fulano de Tal estudou aqui”! Em Belo Horizonte, nunca li nada a respeito disso. E olha que os internatos daqui eram famosos no Brasil inteiro. Essa estreia relação entre educação e religiosidade acontece em Minas de uma forma tão intensa que não há paralelo em nenhum outro estado brasileiro. Em Belo Horizonte, aonde a modernidade chegou primeiro, os internatos fecharam as portas mais cedo. No interior, duraram mais tempo. Por isso, não deixa de ser estranho que um jornalista italiano venha, antes de nós, buscar esse tipo de informação…

Colégios, educandários e outras instituições do tipo estão nos roteiros turísticos de todas as grandes cidades europeias. Nos Estados Unidos, no México, na Argentina… São motivo de orgulho para todas as populações. Em Belo Horizonte, muitos desses estabelecimentos conservam também uma arquitetura diferenciada, que representa épocas importantes da cidade. Daí a importância de se preservar as bibliotecas, os auditórios, o mobiliário. Não sei hoje como estão os colégios do interior, a não ser o Caraça. O de Itabira, quando vi que não tinha mais o antigo prédio, achei que perdeu muito da imponência, ficou comum. Mas a história está lá.
Quanto ao Mineirão… Devo dizer também que não falei nada pro Luigi porque o fato teve repercussão internacional. E fez levantar um tipo de suspeita que começa a se fortalecer e a me assustar. É como uma corrente negativa, negativista até onde é possível ser, que vaticina a incompetência do país em se organizar para promover eventos de grande porte. Tá todo mundo achando que vai dar tudo errado.

Por isso, uma coisa tem que ficar bem clara: se as coisas não saírem bem feitas aqui, ninguém vai aceitar desculpas. Manda direto pra cadeia!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Paolo Xavier

    Como sempre, ótimo texto Eustáquio! E para mim, que experimentou a Europa mês passado, os nossos problemas são piores que eu imaginava. Vamos ver o que vai dar nas Copas. Abraço!

  • Marcelo

    Também tenho saudades do mineirão quando podia tomar uma cervejinha,mas acabou sendo melhor assim,devido aos abusos de alguns…