Depois do protesto vem o quê?

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Helenice foi demitida ontem. Faltou três dias e não se justificou. Quando chegou pra trabalhar, recebeu a notícia da demissão. Tentou conversar com o patrão, mas não deu: ele se manteve irredutível. Nem quis mais saber o motivo das faltas.

— Eu estava protestando — gritou Helenice, quase histérica.

Eustaquio02O patrão, dono da padaria onde Helenice trabalhava, disse até que compreendia, que o país tá tipo um horror, mas que, protestos a parte, alguém tem que trabalhar. “Quando amanhece, cliente não quer saber disso, não; ele quer o pão quentinho, saindo do forno”, disse seu Manuel.

— Além do mais, dou vale transporte pra todo mundo!

Furiosa e magoada, Helenice foi beber cerveja num bar próximo, onde se encontrou com as amigas Bárbara e Lucineide, manicure e cabeleireira de um salão de beleza vizinho, que se dispuseram a lhe dar uma força. Por sorte, o salão precisava de alguém com experiência pra trabalhar no caixa.

— Não é bem igual caixa de padaria, onde dá de tudo; povo que vai a salão é outra coisa, mais fino — explicava Lucineide, fazendo de tudo para encorajar a amiga, mas sem se esquecer de lembrar que não dá para protestar em salão de beleza.

A conversa se concentrou na onda de protestos que, no momento, sacode o Brasil. Bárbara apoia os manifestantes, mas não se animou a participar de nenhuma passeata. Nem Lucineide.

— Bom, até iria, se não tivesse esses vândalos…

Helenice foi a todas as manifestações. Ordeira, pacífica, mas com um discurso político afiado, na ponta da língua. Herança de seus tempos de militante petista, que, segundo ela, já vão longe.

— Caí na real.

Hoje se diz apartidária, mas nem por isso menos participativa. As manifestações partiram para uma estrada sem volta, em sua opinião. Os manifestantes deveriam se ater ao protesto contra o aumento do transporte coletivo, que afeta 80% ou mais da população. Um aumento que não condiz com a qualidade do serviço ofertado. “Aliás”, pondera Helenice, “é sempre assim: o aumento das tarifas nunca é proporcional ao da qualidade do serviço — sempre há atrasos, os ônibus são sujos, mal cuidados, e os motoristas são despreparados, mal pagos, insatisfeitos”.

— O aumento afeta muita gente, mas esse era um protesto mais do povão, de gente que mora na periferia, que tem que pegar dois ou três ônibus por dia. Na hora em que a classe média misturou as marchas e veio protestar contra a Copa do Mundo, contra a corrupção, contra a PEC 37, perdemos o foco. Agora ninguém sabe mais como é que isso vai acabar.

Pelo visto, não mesmo. Tanto que Lucineide e Bárbara comentaram que não foi só a tarifa dos ônibus que aumentou. “E o preço dos esmaltes? Está um absurdo, todo dia tem gente protestando no salão”, conta Bárbara. “Só dos esmaltes, não”, lembra Lucineide, indignada: “aumentou tudo: tintura, xampu, hidratação, escova, corte, unha, pé… Só o salário da gente é que não sobe”.

Aumentou também o movimento nos salões de beleza. Mesmo em tempos de crise, esse é um movimento que não cai, reconhece Dilza, a dona do salão. Ela, fiel a seu discurso de microempresária, no entanto confirma que aumentou a frequência, “mas que não foi assim também não”. Tanto que desistiu de fazer a festa dos quinze anos da filha mais nova, em Miami, como estava programado há um ano — agora vai ter que ser num Buffet da Savassi! Sim, claro que a menina protestou, mas, fazer o quê, numa crise dessas?

É a mesma pergunta que faz Dionísio, dono de um escritório de contabilidade que emprega vinte e seis pessoas e atende a quinze empresas de médio e grande porte. Dionísio é contra os vândalos e apoia os manifestantes, mas, pelo sim pelo não, não permitiu que os filhos universitários fossem pra rua protestar.

— Protesta daqui mesmo — diz, apontando a televisão, que mostrava a arruaça dos vândalos no campus da UFMG, no dia do jogo do México contra o Japão. Dionísio é contador, formado em economia. Não se queixa da vida que leva. É dono de cinco imóveis; tem três carros; sítio perto de Jaboticatubas e os quatro filhos fizeram intercâmbio nos Estados Unidos e, no ano passado, a família toda foi passar o réveillon em Orlando, nos Estados Unidos.

— Acho que deveriam protestar também contra a alta do dólar — propõe Kátia Marize, mulher dele. A família compreendeu, mas protestou quanto à necessidade de adiar para o ano que vem as férias inicialmente programadas para Punta Canas, na República Dominicana, agora em julho. “Vai ser no Brasil mesmo, mas em algum lugar onde não haja protesto nem vândalos”, adianta, sugerindo que “a Dilma deveria dar um jeito de baixar o dólar — ou então ninguém viaja mais”.

Vai ser difícil mesmo, já que o dólar não dá nenhum sinal de cair e os vândalos, essa gente que sai de casa carregando bombas na mochila e nada no cérebro, parecem ser hoje a face que marca a imagem das manifestações, acima dos cordões ordeiros e pacíficos que tanto encantaram o país no primeiro momento. Lá fora, as batalhas campais travadas contra o aparato policial, a destruição sistemática do patrimônio público e o solene descompromisso das hordas de saqueadores diante das instituições democráticas são o traço mais forte dessa nova cara do Brasil. O Movimento Passe Livre é citado, mas sem o mesmo destaque. Sílvio Mello, sociólogo e amigo de longa data, acha que o grande paradoxo do momento é encontrar um fim para o caos.

— Ninguém sabe: o governo, a polícia, os manifestantes. Só os saqueadores é que vão lamentar o fim dessa balbúrdia; eles tiveram um lucro muito grande.

Enquanto isso, a Copa, apesar dos pesares, ainda vem com a promessa de gerar empregos e oportunidades, ou seja, de fazer girar a economia. Possíveis ramificações desse discurso conservador, que passou por cima do movimento do Passe Livre, podem, de repente, banalizar a simples, legítima e necessária possibilidade de exercer a lógica da contradição, em vez de dar o passo seguinte, que é o mapeamento dos inúteis e dos corruptos, e vetá-los, pela força do voto, nas próximas eleições. Se não for assim, correremos o risco de transformar o caos num moto perpétuo que a ninguém beneficia. E continuar a viver em suspense até as próximas manifestações, isto é, até a Copa de 2014. E depois — Deus nos acuda! — até as Olimpíadas.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.