Depois de dar uma dentro, o melhor é dar o fora…

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Eustaquio02O mundo é um caos eterno, infinito. Juntei todas as conversas para tentar dar uma ordem nesse caos. Trabalho insano. Uma trama que insiste em não se completar. Cacos do caos estão por toda parte…

Deu na TV. Na TV e em todo lugar: “o fim do mundo está próximo”. Só não deu no Jornal Nacional. No jornal da Record, dá todo dia. Nem valeu rezar a noite inteira. Eu vi um homem usando gravata engomada. Não viu, marcou bobeira. Quanto desatino! Em mim, nada pega. Tenho o corpo fechado, como bom filho de Ogum. Salve, Jorge! Domingo, 23, é o dia de Jorge.

— É o dia dele sair pelo mundo, em seu cavalo branco, pra ver como é que tá…

O rei Pelé aparece na foto com um disco de Agostinho dos Santos e outro de Nélson Gonçalves. E ninguém dá valor! O mar que quebra na areia. Marés de veneno. Chuva, suor e cerveja desaguando no Taquaril, ladeira abaixo. Spill the wine. Em todo rio me lanço; de todo cais me afasto. Sou agora, no mar dessa vida, um barco a vagar. Meu caminho é de pedra. Guardar o dinheiro pro filho que eu quero ter, ano que vem, mês que foi. Está sempre à esquerda a porta do banheiro. O tempo é como um rio que caminha para o mar… Rio, se o mar te espera, não corras assim! Esse meu sangue fervendo de amor! Mas, se não for amor… Mar de lama, o abismo, do alto do fundo do poço. Lugar comum. O suplício de uma saudade. Não apague esse sonho. Não deixe o samba morrer. Não viste a flor se curvar e ficar lá pra traz? O mundo tá desabando, mas se eu ficar sem o samba, não sei o que será. Only you can make my dreams come true. Quando eu tiver a minha cuca cheia de cachaça…

O amor é não. O amor é pus de barriga vazia. O amor é não; poesia, para!

— Desce duas, desce mais!

Calma, violência. A dor é tão velha que já sabe o que fazer pra não morrer. Pra tanta dor ninguém tem peito.Três apitos e as morenas ficam louras. Continental sem filtro. A banda na rua e as bundas na TV. Tiros em Columbine, em Santa Efigênia, em Santa Cruz, em Santa Tereza, em Santo Antônio, no São Lucas, em Santa Terezinha, na Sagrada Família. No Paraíso! Marido infiel vai levar rasteira. Hollywood. Tirou o seu anel de doutor, pra não dar o que falar. Discos de vinil, uma canção de Sinatra, o retrato três por quatro de Dorian Gray. Voto obrigatório é coisa de país atrasado. Miss Brasil quer justiça social na boate azul, aqui na Zona Sul. Meu time só me põe doente. Começar de novo e contar comigo, mas sem deixar sangrar meu peito. Bom dia, tristeza. Imperfeitas circunferências.

— Por que bebes tanto assim, rapaz?

— Eu bebo da branca, porque gosto dela; bebo da amarela, bebo na tigela… Sendo pinga, eu bebo contente.

Espere por mim, morena: a árvore do paraíso tem marimbondo no pé. Seguir sempre sozinho, como os barcos antigos. Túneis sem luz no fim; o único fim possível é o fim do mundo. E farinha pouca, meu pirão primeiro. Let it Be. O bem e o mal desfilarão lado a lado nesse desfiladeiro de horrores que é a avenida desiluminada, em obras para deixar passar o trem das onze, que corre entre a cidade do SIM e a cidade do NÃO. Mulatas malvadas nas arquibancadas mostram os dentes. O que pode um sorriso! Malandros caindo de porre ao som de um Fox trote. Já não se fazem mais malandros como antigamente.

— Um chope, pra distrair!

A noite é escura e o caminho é tão longo. O morro não tem vez, perdeu outra vez para o céu, no jogo da vida.

— O amor não tem cheiro de flor. De-fi-ni-ti-va-men-te, não!

Praça querida. Lírios plásticos no campo e no contracampo. Violetas de acrílico, margaridas de popeline, verbenas de seda. Vinhos finos, cristais. Essa moça tá diferente, porque ela é a outra na minha vida e eu vivo igual uma brasa. Um amor nada inofensivo, sabe? Quando o ciclone atingiu nossos destinos, nenhum de nós pensou voltar atrás.

Me contaram que tem uma Copacabana lá na Bolívia. E na Bolívia, além dessa Copacabana, montanhas, serestas, toneladas da pura alegria para compensar tanta coisa feia.

Alvorada aqui no morro, que beleza… A natureza sorrindo, tiros disparados para o alto, mirando as estrelas, tingindo a púrpura sanguínea do horizonte ainda belo que se percebe no contraluz. O sangue… Quem segura o jorro que nunca coagula? A Justiça é um mico de porre dançando. Por isso, as sete pragas do Egito voltarão a qualquer hora. Evém Deus! Mas não para explicar. Afinal, explicar o quê, se o caos que rege o pequeno universo dos mortais é infinito? Eu quero é dar o fora…

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Genoveva Ruisdias

    Eustáquio Trindade Neto,
    Amei o sex texto de sua crônica “Depois de dar uma dentro, o melhor é dar o fora…”. Meu amigo, à medida em que o tempo passa, você fica mais interessante e romântico. Quem lê, pensa primeiro no samba do crioulo doido; mas depois, vai costurando a poesia de cada um das suas citações e baba… literalmente…

  • Fernanda Hally

    Simpilsmente: Brilhante. Sinto muito orgulho de ter sido sua aluna e já estava sentindo saudade dos seus textos.