De Wander Lee a Alfred Hitchcock e o BBB

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Eustaquio02Voyeurs, dizem, existiram em todas as épocas. Desde Adão e Eva. Quer melhor exemplo que a cobra, que ficou o tempo todo na moita, enquanto o bicho pegava debaixo da macieira? Espiar, diz a psicologia, é coisa própria do ser humano. Gente poderosa se aproveitou disso e fez do voyeurismo uma arma letal para difamar, matar, destruir. Nero, Lucrécia Bórgia, Mata Hari, Edgar Hoover, Hitler, só pra citar alguns dos mais famosos… A psicologia e a psicanálise definem o voyeurismo como uma ação doentia, transtorno, aberração, desvio sexual. Ou seja, não há nada nobre no ato de espionar pessoas…

Em 1954, Alfred Hitchcock transformou “Janela Indiscreta” (Rear Window) em um profundo exercício sobre o voyeurismo, ao condenar um fotógrafo, temporariamente inválido por causa de uma perna quebrada, a passar os dias diante de uma janela, olhando os fundos de um prédio de apartamentos. A princípio, forçado a entrar involuntariamente na vida de diversas pessoas. Mas, involuntariamente só a princípio, com alguns escrúpulos gerados, talvez por uma leve sensação de culpa que vem da consciência de se saber invasor do espaço alheio. No entanto, a mórbida compulsão que transforma a curiosidade em vício, não tarda a aparecer. Impotente, em sua cadeira de rodas, mas munido de um binóculo, sempre oculto nas sombras de seu covil, o fotógrafo (magistralmente vivido por James Stewart) troca a ação pela passividade da visualização ao esmiuçar detidamente o múltiplo universo que se abre diante dele. E ainda que seja mais comum anexar ao voyeurismo o vício de buscar a visão de práticas sexuais diversas, parece que hoje os campos de exploração visual são tão infinitamente mais amplos, que é impossível fixar a ação do voyeur num único foco, tal a multiplicidade de informações que recebemos a todo instante.

“Observa-se a vida, mas principalmente a infelicidade alheia”, disse-me a mãe de uma amiga, sábia, já entrando na casa dos 80 anos, explicando seu desconforto de morar, pela primeira vez na vida, em um apartamento, comprado em nome de uma suposta segurança que as casas já não dão mais. Para ela, o mais tímido movimento de uma cortina ou de uma persiana nas janelas vizinhas é o sinal de que olhos perversos a espreitam de uma escuridão sombria. Por isso, até tomar sol, fumar um cigarrinho e ler jornal na área privativa se tornou, nas palavras dela, “um suplício”.

Na verdade, acredito que o que fazemos hoje — e reparem que estou usando a primeira pessoa do plural — é apenas tentar ajustar o foco da observação no inesgotável campo de possibilidades que as novas tecnologias agora nos proporcionam. Isolados entre as quatro paredes de nossas salas, passivos e compassivos, libertamos nossas emoções mais baratas ao acompanhar as tristes personagens que se movem nos reality shows da internet e da televisão. Tanto faz que seja algo tão idiota quanto o Big Brother Brasil, o constrangedor espetáculo que reúne as mulheres ricas ou um acidente de carro em que morre uma mulher grávida de oito meses. Com o controle remoto nas mãos, nos sentimos poderosos, como se fôssemos os senhores do tempo. Como se tivéssemos o dom de alterar a ordem das coisas. Por isso, estamos sempre buscando a crueza dos detalhes, avançando ou retrocedendo. No mouse ou no controle remoto. Paris Hilton chapada, Ronaldinho Gaúcho se masturbando, o choro bandido do rapaz que foi enganado pelo diretor da televisão, a modelo bêbada, que teria sofrido estupro, ao vivo e em cores, em tempo real, no reality show… Mudos, tensos, às vezes quase catatônicos, mas cada vez mais sedentários, nos debruçamos durante horas diante dessas novas janelas abertas para o mundo.

A mãe da minha amiga, que citei acima, também não gosta de internet e acha a televisão cada vez mais chata. Principalmente as novelas. “Deve ser por isso que as pessoas ficam nas janelas dos apartamentos observando a vida dos outros, que parece ser bem mais interessante — e é tanto prédio, uma janela quase em frente à outra, que deve ser ótimo olhar”. Pode ser mesmo.

E como uma coisa puxa outra, me lembrei de um delicioso samba do nosso Wander Lee, chamado “Chazinho com biscoito”, que conheço de uma interpretação muito boa da Regina Sposito. Na letra, uma personagem tão perversamente bem humorada quanto observadora, fala de alguns vizinhos — do rapazinho lá do 21 ao fala-mansa lá do 101, passando pelo bonitão cabeludo, que usa brinco e mora lá no 105. E a empregada lá do 107, que fica ouvindo Elizeth e deixa o leite derramar? E o da cobertura, que é fã do Sepultura? E o daqui do lado, que fica pelado dançando sapateado em frente à televisão?

Sei não, mas toda vez que ouço essa música, me lembro do Maletta, Roma, Araguaia, San Remo, aqueles imensos condomínios do centrão de Beagá, de janelas às vezes tão próximas que dá para trocar apertos de mão. Nunca morei em nenhum deles, mas muita gente como eu, que veio do interior, principalmente nos anos de 1970, morou nesses edifícios. Colegas meus moraram; por isso fui lá diversas vezes fazer trabalhos ou naquelas festas de estudante pobre, de biscoito salgadinho com patê de creme de leite misturado com sopa de cebola e garrafão de cinco litros de vinho Chapinha. E aí rolava cada história da vizinhança… Mas isso é papo pra outro dia.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.