De Amália Taboada a Côte d’Azur

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Eustaquio02Amália Taboada. Para quem não sabe, ficava logo ali, na rua da Bahia, entre Tupinambás e Carijós. Tenho uma amiga que morou lá, por algum tempo, quando esse trecho da Bahia, se já não era mais assim tão nobre, pelo menos não era tão popular quanto é agora. Mas o prédio, antigo, de salas e quartos amplos e janelas imensas, é um bom exemplo de como se morava melhor por aqui, em outros tempos.

Recentemente ganhou uma boa reforma. Digo isso sem nenhuma vontade de ser saudosista. Mas o mais legal de tudo era o nome do prédio. Não tive tempo de pesquisar quem era Amália Taboada, mas deve ter sido uma pessoa e tanto. Mesmo assim, não impediu que a arquidiocese de Belo Horizonte, dona do imóvel, mudasse o nome para edifício Dom Oscar de Oliveira.

No centro da cidade há vários edifícios como nomes assim. Nos bairros, mais ainda. Condomínios com nomes até poéticos, como o das Gaivotas, onde também já moraram duas amigas minhas. Já vi edifício Santa Rita, São Bartolomeu, Ermelinda Soares, João Gualberto, São Judas Tadeu, Monteiro Lobato…

Em compensação, no Floramar, me conta uma aluna, tem um salão de beleza que se chama Aparecida’s, com apóstrofo e esse, tal e qual nos Estados Unidos. Contou que também o Chiquinho’s, que vem a ser um boteco pra lá de pé sujo, mas que se acha o máximo com esse tipo de grafia. Procede. Vi num caderno de imóveis, nesse fim de semana, um prédio que se chama Juan Les Pins. Outro, Mayfair Offices. O anúncio estava entre o do Boulevard Luxemburgo e inacreditável Condomínio Resort Green Garden… De alguma forma, acho que algumas pessoas devem achar que faz alguma diferença morar num prédio com um nome desses. Há dias, presenciei uma cena que ilustra isso muito bem. Um casal de emergentes contava pra outro casal também de emergentes (os quatro usando camisas Lacoste!) que comprou um apartamento no condomínio Côte d’Azur.
— Que luxo!!!

A certos ouvidos, desses bem idiotas, isso deve parecer bem melhor do que morar, por exemplo, no edifício São João Batista, no condomínio Raimundo Ferreira da Silva ou no edifício Nossa Senhora de Aparecida.

Daí que fiquei sabendo que, em alguns casos, contratam até gente pra ficar bolando esses nomes. Uma amiga minha que trabalha numa construtora de luxo, do primeiro time, contou que, pelo menos na hora de vender, faz uma diferença daquelas. Deve fazer mesmo, comentou outro amigo, dizendo que adoraria morar num edifício com nome de bebida. Que bebida? — perguntei.
— Tequila!

Na hora, não levei nem um pouco a sério, mas depois, pensando bem, acho que seria até interessante se as construtoras, em vez desses nomes bestas, começassem a pensar em coisas mais divertidas, já que, pelo visto, pra coisas mais sérias ninguém parece que leva o menor jeito. “É o público que pede esses nomes”, justifica essa minha amiga que trabalha em construtora chique, me adiantando que, em pauta, há nomes como Condomínio Resort Cape d’Antibes; Aspen; Bariloche; Saint German…

Hoje mesmo passei pela rua da Bahia e fiquei, em vão, procurando Amália Taboada. Aqui mesmo no meu bairro tá cheio de nomes assim. Tem até — pasmem! — uma Tiffany’s! Até me lembro da cena inesquecível de Audrey Hepburn, na 5ª Avenida, diante da famosa joalheria, no clássico “Bonequinha de Luxo”…

Mas, enfim, cada Tiffany’s tem a Audrey Hepburn que merece…

De qualquer modo, admiro o esforço dessas pessoas em seu afã de se tornarem chiques — ou devo dizer chics? Não sei. Também não sei de quem é a frase a seguir, mas ela ilustra bem o que penso: “Para quem não sabe aonde chegar, qualquer caminho serve”. E por aí vamos, até trombar com o edifício White House.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.