Dança com lobos

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Eustaquio02Dança com lobos. Um casal, amigo de longa data, com quem me encontrei nesse fim de semana, contou que está de mudança. Não aguenta mais Belo Horizonte. As obras, o barulho, o trânsito infernal que transformaram a capital na cidade com um dos piores índices de qualidade de vida do Brasil.

— Se não for o pior — me assegura esse amigo meu, jornalista e professor, que viaja constantemente e, portanto, fala com amplo conhecimento de causa.

Pergunto se nas outras cidades também não é assim, porque, um dia desses aí, uma pessoa me contou que Goiânia, que tinha fama de tranquila e boa pra viver, também virou um caos. E por aí vai. Recife, Porto Alegre, Salvador — essa, então!!! —, Curitiba… Então, o jeito é sair do Brasil? Meus amigos não sabem, eles não têm resposta para tanto. Mas, será só a cidade? Comento que eles não são os únicos. O que mais vejo hoje é gente descontente com a vida. E não sei se vem só do fato de viver em uma cidade como essa Belo Horizonte de hoje, de tratores e de “desculpe o incômodo, mas estamos trabalhando para o seu bem estar”. Desculpa tira culpa?

Aí vem o pior de tudo, o sentimento de impotência. Isso talvez seja a razão de tanta angústia. Respostas e dúvidas deveriam se dissipar mais facilmente quando se chega a um determinado momento da vida, quando já se andou tanta estrada, mas, cada vez mais, descobrimos o contrário. O que a cidade aparenta de forma tão crua é apenas um reflexo do que temos pela frente em nosso dia a dia, nas relações humanas, seja no trabalho ou não. Porque somos hoje um país que quer resultados — o que não quer dizer que sejamos um país de resultados. Por isso, pressões chegam de todos os lados, em todas as instâncias. A palavra “resultados” mesmo quando não é dita, está o tempo todo no ar. Virou uma espécie de sina, de sentença de morte.

E a ponto de fazer com que uma profissão, quase sempre encarada como uma missão, como essa desse meu amigo que se vai, se torne, de repente, o motivo da pressão alta, da falta de risos, da raiva sem sentido, da boca tornada eternamente amarga para a vida.
Essa busca por resultados me lembra um pouco a fábula do lobo e do cordeiro, que mostra um dos lados mais perversos do ser humano, a necessidade incessante de estar sempre à procura de um culpado para, às vezes, justificar suas próprias faltas. Farinha pouca? Meu pirão primeiro.

— Se não foi você, foi seu pai; se não foi ele, foi seu avô…

Se não foi agora, foi agora há pouco; se não foi hoje, foi ontem, antes de ontem, semana passada, semana atrasada, mês passado, mês atrasado, 2008, 2007, 2003… Daí que, somado a tudo isso vem o inferno de viver hoje nesse triste horizonte, que meus amigos vão deixar para trás daqui a um mês, quando se mudarão para uma cidade do interior, de apenas cinco mil habitantes.

Vivo o impasse e a amargura deles. Odeio essas coisas que o tempo nos impõe com uma lógica tão precisa, mas tão precisa que conflitos dessa natureza chegam a parecer naturais, enquanto naturais deveriam ser a compreensão e a solidariedade. Vou, em nome dos meus amigos, tentar exorcizar a cinzenta nuvem de pessimismo que hoje baixou sobre mim. Afinal, vale a pena ficar xingando e odiando gente que não posso atingir? E quem mandou não ter lido as fábulas com mais atenção? Quantas o cordeiro livrou pra cima do lobo? Nenhuma! E, a quem interessar possa, informo que, ao contrário deles, ainda que munido dos mesmos sentimentos, não tenho a menor intenção de ir para o interior.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Maria Cecília

    Mesmo com todos os problemas a capital ainda parece a melhor das opções, mas concordo que essa “melhor opção” vem dando muita dor de cabeça e nada de melhoria até hoje. A unica coisa que vemos é uma avenida como a Cristiano Machado cada vez mais estreita e impossível de se confiar caso tenha um compromisso. Acho que BH atingiu o caos e nós, nada podemos fazer a não ser aguardar essa melhora feita pra “nós”mesmos.