Consumir bem é viver

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Eustaquio02Li na Folha de São Paulo de segunda-feira e me soou como uma espécie de conselho: “Pense no que é tolo para você e corte isso de sua vida. Tenha objetivos fortes — uma viagem ao exterior, um ótimo carro etc. — e foque nisso. Separe uma verba para ser feliz com o que te faz feliz”. Bonito. E estava no caderno de Economia! Mas será que, no dia a dia, em meio a tantas tentações de consumismo, dá para ser assim tão prático, tão objetivo? Afinal, consumir não é viver? Eu, por exemplo, tenho um problema sério com papelarias. Já houve um tempo em que não podia ver uma papelaria que entrava e danava a comprar. Às vezes, coisas de que nem precisava. Ou não precisava tanto. Lápis, lápis de cor, borracha, apontador, cadernos, cadernetas, régua, esquadro, compasso, transferidor… Quem se lembra do que é um transferidor? Nunca soube exatamente o que fazer com um, apesar de conhecer a importância desse instrumento para as ciências exatas, mas já cheguei a ter uns três ou quatro. Régua T, também, uma herança dos tempos em que pensei fazer arquitetura…

A Faculdade de Arquitetura, que ficava ali, na rua Paraíba, no Funcionários, era considerada a mais chique da UFMG. Acho que era por isso que tanta gente usava camisa Lacoste (aquela do jacarezinho). Nunca vi tantas, em toda minha vida. Eu tinha um colega que possuía várias, uma de cada cor. E ele ainda tinha algumas de listras, além de uma blusa de mangas compridas, com debruns nos punhos e na gola em V, que era um luxo! Cerca de 90% dos alunos usavam camisas Lacoste. Eu ainda vivia a fase da camiseta branca tinturada e machada com tinta Guarani… Claro, não foi só por causa das camisas Lacoste que desisti de ser arquiteto, mas devo dizer que, de alguma for, isso contribuiu. Até porque, o outro complemento do uniforme dos estudantes de arquitetura da época, os mocassins dock sides, era uma coisa que não me dava o menor tesão… Engraçado como, falando de consumo, uma coisa vai puxando a outra. Eu comprava pouca roupa — camiseta, calça jeans e tênis. Não era o que me fazia feliz naquele tempo. Ficava, portanto, bem dentro do conselho do articulista da Folha…

Mas havia uma coisa que me tirava do sério, além das papelarias, onde eu também comprava penas, canetas, tintas e blocos de desenho aos montes: discos e livros. Eu torrava uma grana preta com livros e discos. Discos, enquanto fazia crítica de música, ganhava muitos também, mas o momento da compra era diferente. Era uma decisão que resultava de uma escolha, uma coisa tão intimamente pessoal, que nunca me senti à vontade pra falar disso. Comprar, por exemplo, um compacto duplo (que vem a ser um mini LP de vinil, pra quem não conheceu) da Maysa cantando “Ne me quitte pas”, num tempo em que todo mundo só ouvia Genesis, Pink Floyd e Yes. Eu também gostava, mas a Maysa se revestia de um encanto muitíssimo especial — ainda mais porque já tinha entrevistado e saí da entrevista apaixonado por ela e coisa e tal. Então, consumir, pra mim, tinha alguma coisa de transgressão, assim no sentido daquilo interessar apenas a mim, o que me desobrigava de ter que dar satisfação pra quem quer que fosse. Se eu gostava da Maysa quando a moda era o Pink Floyd, ninguém tinha nada com isso. A Maysa cantando “Ne me quitte pas”, nunca deixo de escutar. Já o Pink Floyd… Presumo, então, que consumi com alguma sabedoria.

Agora, ainda seguindo conselho da Folha, tô focado numa viagem ao Japão, que sempre tive vontade de conhecer. Ou, então, ficar um mês rodando pelo interior da Itália, parar em uma por uma daquelas pequenas cidades, que se ocultam como tesouros preciosos, dentro das muralhas medievais que se vê ao longo das rodovias. Mas, claro, não antes de uma boa parada em Roma, pra encontrar uma loja de discos… Em Roma ou em Paris. Os franceses são um povo que se interessa muito pela música de outros povos. Numa boa loja de discos da capital francesa você encontra música de todo o mundo árabe, da Índia, da Escandinávia, do Japão, do Nepal, do Brasil… Dos africanos, por exemplo, que tenho ouvido com interesse cada vez maior. Ali Farka Touré, Toumani Diabaté, Amadou et Marian. Mas, suponhamos que, de Roma, decido dar uma passadinha em Paris. Começo por eliminar os pontos turísticos convencionais, sempre apinhados de gente chata, em troca de dar um giro solitário pelas ruas mais afastadas de Montmartre para comprar gravuras numa daquelas livrarias bem antigas. Depois, procurar um bistrô em uma rua bem afastada, pedir um café, um conhaque e acender um cigarro (mesmo tendo parado de fumar) — na França não dá pra não fumar um. De preferência, um daqueles bem fortes — Gitanes ou Gauloises Bleu. Aí, é bom que você fuma um só e pronto!

Consumir bem é que é viver. Mas, consumir bem, necessariamente, não quer dizer sair comprando tudo o que se vê pela frente, como se o mundo fosse uma espécie de Casas Bahia, despudoradamente escancarada à nossa frente…

Na volta, de Paris, que tal um pulinho em Portugal? Uma viagem ao Porto e uma visita à centenária livraria Lello & Irmãos, uma das mais bonitas do mundo. Passar uma tarde inteira lá em companhia de Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Florbela Espanca e, claro, Fernando Pessoa. Antes de voltar ao Brasil, uma última parada em Lisboa, em busca de mais livrarias e discos. Na última noite, na Cidade Alta, numa boa taberna, ouvir alguém cantar que “o branco véu da saudade cobre o teu rosto, o’ linda princesa”… Dulce Pontes, Maria Teresa, Antônio Zambujo, Maria João, Eugênia Melo e Castro, Paula Ribas… me aguardem! Consumir aquilo que nos deixa felizes é que é viver.
Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.