Como organizar o caos?

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"Como organizar o caos? " Crônica por Eustáquio TrindadeVi uma definição curiosa de “fim de ano”, que enfileirava uma série de palavras e expressões. As duas primeiras, genéricas. Tristemente genéricas: “confusão” e “bagunça”. Evidentemente, tanto num caso quanto no outro, foram ganhando substitutivos que teriam mais a ver com quem as empregava. Ouvi a velha palavra “desordem”, em vez de bagunça, de um militar reformado. “Transtorno”, segundo um advogado. “Balbúrdia” foi a escolhida pela cabeleireira e maquiadora Soninha, que veio atender uma vizinha aqui do prédio. Um sobrinho meu fechou a questão dizendo que “toda vez que chega o fim de ano, a cidade vira uma zona”. Curto e grosso, mas direto no alvo.

Todos estão certos. À sua maneira, complicando ou descomplicando a vida com maior ou menor intensidade, mas estão certos. Fui algumas vezes ao centro e acho que o centro da cidade era a soma de todas essas palavras. Usaria caos, se já não estivesse tão desgastada. Tudo agora é caos. A repórter da Rede Globo disse que, “para evitar o caos, a polícia rodoviária implantaria uma fiscalização redobrada nas estradas”. Como se adiantasse… No comércio também. Para evitar o, com o perdão da palavra, “caos”, “os lojistas fizeram contratações temporárias”, disse o rapazinho da TV Record, de terno e gravata, todo suado, na saída de um shopping popular. Caos no transporte, na segurança pública, nas lojas… Até na Missa do Galo, que minha vizinha idosa acha um absurdo que seja celebrada às seis da tarde. Pra ela, Missa do Galo que se preze tem que ser rezada exatamente à meia note. “Senão, vira o caos”.

O caos, no entanto, parece que tem origens mais profundas. Estamos cada vez mais longe de nos livrar delas. Nas ruas ou nas lojas, nos aeroportos, na rodoviária, nos táxis, no metrô ou nos ônibus, para escapar do “caos”, frequentemente nos esquecemos do que somos ou de quem somos. Criamos coisas absurdas, como fez um rapaz na fila de um supermercado, onde foi distribuindo a família — ele e mais três irmãos — em quatro filas diferentes, cada um buscando um operador de caixa diferente. O que estivesse na fila mais rápida levaria para o caixa o fenomenal carrinho de compras natalinas, que parecia um daqueles ônibus ingleses, de dois andares… Chama-se “guardar lugar”, essa prática. Ou praga, se preferirem. Um desses irmãos estava bem na minha frente. Sentia-se poderoso. Daí suas expressões irônicas e desafiadoras, os gestos ameaçadores. Os outros não deixavam por menos. Para evitar o “caos”, consentimos calados. Apesar de indignados. Mesmo quando eles, vitoriosos, deixaram o supermercado dando uma banana pra quem continuou amargando sua vez na fila.

A moça do caixa, de cabeça baixa, não respondeu ao “bom dia”. Dar o troco certo, atender gente indecisa, que não sabia se ficava ou se voltava pra pegar o iogurte grego esquecido lá atrás… E a que não queria pagar a sacola descartável? E o aposentado que deixou a fila impaciente quando deu de não acertar a senha do cartão? Madame Fulano de Tal, de óculos, com armação que — pasmem! — imitava pele de onça, jurava que era a última vez que comprava em supermercado da Classe C. No carrinho, só importados!

A mesma coisa com a outra moça, a que atendia no guichê do estacionamento. “Não sou paga pra dar bom dia”. Mais adiante, o motorista de táxi recusava uma passageira: “o peru tá descongelando, vai sujar meu carro”. Um oficial da PM, que não deveria ter mais de 21 anos, tentava, logo ao lado, dar uma ordem na fila que se formava diante da lotérica. Gentil, educado, lembrando que idosos tinham preferência na fila… Ali, a animação era total. Muitos, já se sentindo ganhadores, se preparavam para engrossar outra fila que se formava não muito distante, a da operadora de turismo popular, que vendia pacotes — “os últimos” — para quem fosse para Marataízes, Caldas Novas ou Aparecida do Norte. O rapaz do táxi disse que, se ganhasse, iria pra Nova York. Ficou sabendo por um primo que tudo lá é mais barato — “Tô a fim de um notebook”. Não tenho respostas, mas concordo com um gesto.

Chego em casa, ligo a televisão pra ver como é que tá o caos lá fora. “O caos está um caos”, constata um repórter de terno e gravata, crente que está sendo original — o que seria da gente sem esses meninos e essas mocinhas que as TVs estão contratando agora!!! No outro canal, com ligeiras variações, o caos vai se desdobrando. “A Régis Bittencourt está um caos”, avisa o apresentador da Band. Não, brada o da Rede TV: “O caos está aqui, na marginal Tietê”. A Avenida Atlântica, na Praça Sete, no Oiapoque, no Chuí… Caos em todo lugar. E promete avançar janeiro adentro pelas praias, pelas praças, pelas ruas, pelos shoppings, até fevereiro, quando o carnaval chegar. Passados os três dias de saracoteio (que na prática são quatro), espera-se que o caos dê uma trégua e o país comece a trabalhar, preparando-se para o caos maior que vem por aí… Será que não pra adiar a Copa do Mundo? Minha empregada diz que vai ligar pro Léo Burguês…

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.