Colégio Batista: educação, praticidade e memória contam a história do bairro

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O Colégio Batista Mineiro dita o ritmo do bairro

Gustavo Lameira

O Colégio Batista é um bairro tradicional, de classe média, e tem parte nas regionais Leste e Nordeste de Belo Horizonte. O bairro é anterior ao Colégio Batista Mineiro, mas foi a instituição quem emprestou seu nome às partes mais altas do Lagoinha e Floresta — era chamado Alto da Floresta. Fundado em 1918, o CBM começou com 13 alunos de séries mistas, e era o proprietário da maioria dos terrenos da região. Com o tempo, os terrenos foram sendo loteados e vendidos, mas a escola manteve sua influência na formação do bairro e ainda dita seu ritmo.

Hoje, o Sistema Batista Mineiro de Educação (SBME) tem 8 mil alunos, e é composto pelo Colégio Batista Mineiro, Faculdade Batista de Minas Gerais, Instituto Batista de Idiomas, e pelas unidades sociais de Educação de Jovens e Adultos (EJA). O bairro também cresceu e, em 2009, foi oficialmente reconhecido pela prefeitura de Belo Horizonte como Colégio Batista.

Dona Rita é uma das comerciantes do bairro

O comércio é modesto. Não há supermercados de grandes redes, bancos ou hospitais. Mas há serviços específicos como academia de pilates e outra só para mulheres; estúdio musical, para gravação e ensaio; e a Discoteca Pública, ponto de encontro dos que colecionam e dos que curtem discos de vinil. Dona Rita, da banca de jornal, está há seis anos na esquina das Ruas Ponte Nova e Varginha, diariamente, das 6h às 18h30min. Para ela, o ponto é bom, mas o comércio da região gira mesmo em torno dos colégios. “Quando chega o período de férias, principalmente dezembro e janeiro, o movimento de todos os comerciantes cai bastante, cerca de 80%… Não tem jeito”.

Trânsito

Por outro lado, o recesso escolar alivia o trânsito, o maior problema do Colégio Batista. O inevitável movimento de entrada e saída dos três principais colégios (o Batista, Cristão e Santa Maria), em dois turnos, acontece exatamente nos horários de pico. As principais vias do bairro são as estreitas Ruas Ponte Nova e Sabará — atalho permanente para os motoristas que trafegam entre as regiões leste e nordeste e o centro da cidade. O motorista de escolar Fernando Lúcio, já se acostumou com o transtorno, mas sente falta de um agente de trânsito para controlar o fluxo na porta das escolas. “Todo escolar que passa, para, desembarca os alunos; o monitor da escola atravessa um, dois de cada vez. Um guarda fixo, aqui na rotatória, poderia parar o trânsito e atravessar mais alunos por vez. Isso ia congestionar menos”, explica.

Áreas ociosas

Maria Diva Sampaio mora no bairro há 70 anos e, apesar de não se considerar líder comunitária, tem voz e participação ativa junto aos moradores e às regionais. Segundo ela, o Colégio Batista tem boa estrutura, mas, além do trânsito, apresenta problemas de segurança, por conta de áreas ociosas.

Maria Diva é uma das representante da comunidade e mora no bairro há 70 anos

— Esses bairros muito próximos do centro, de viadutos, têm sempre um grande número de moradores de rua, andarilhos… A Praça Professor Alberto Mazzoni, mesmo, ficava cheia deles, mas foi reformada (por meio do Orçamento Participativo), e eles até saíram de lá. Fizeram um trabalho de jardinagem, trocaram o playground, mas podiam ter feito uma academia ao ar livre; a iluminação, talvez por causa árvores, também deixou a desejar. Precisa de mais policiamento, câmera do Olho Vivo.

Fachada do Colégio Batista Mineiro
Fachada do Colégio Batista Mineiro
Boca do Túnel

Outra escolha feita por meio do OP (em andamento) é a construção da Praça Boca do Túnel, sobre a entrada do túnel da Lagoinha, no sentido bairro. O projeto inclui pistas de Cooper, de skate, playground, espaços de convivência e para ginástica. De acordo com a administração Nordeste, a obra terá custo de R$ 1,2 milhão e deve ser concluída no segundo semestre de 2013.

Porém, para a comunidade, mais interessante é que o espaço seja transformado em parque, que possui legislação mais rigorosa.

— Nós estamos preparando um ofício, colhendo as assinaturas e vamos levar à regional ainda este mês. Como parque, o local teria obrigatoriamente vigilância, hora de abrir e fechar. Fica mais bem cuidado, protege os visitantes e os moradores também. Além disso, estamos pedindo para que duas ruas próximas, e sem saída (Sabará e Ubá), sejam interligadas para aumentar a segurança e desafogar o trânsito na boca do túnel.

O casal Cristiano e Helen escolheram morar no bairro Colégio Batista por questões práticas
O lado prático do Colégio Batista

Helen e Cristiano moram no Colégio Batista há menos de um ano. Recém-casados e sem filhos, não correspondem ao perfil “mais família” do bairro, que escolheram por questões mais práticas. “Aqui tem tudo pertinho. Padaria, farmácia, supermercado, casa lotérica… E o melhor: não tem favela!”, valoriza o dentista. O apartamento espaçoso e arejado é da mãe dele. “A gente ia ter que alugar um imóvel de qualquer jeito, e minha mãe tinha esse, aqui, disponível… Mas vamos comprar o nosso; não sei se vai ser este, mas quero nesta região”. Um apartamento como o do casal, pode ser alugado pelo preço médio de R$ 1.200 (ANIL Imóveis).

Para Helen, estar tão próximo do centro (da janela da sala avista-se parte da cidade e da Serra do Curral) não tira a tranquilidade do Colégio Batista. Já a falta de linhas de ônibus exclusivas para o bairro testa a paciência da psicóloga.

— A gente está perto das Avenidas Antonio Carlos e Cristiano Machado, que têm muitas opções de ônibus. Mas é um perto/longe; fica fora de mão. De manhã, aqui dentro do bairro, eu fico 40 minutos no ponto, e o ônibus ainda vem lotado (8107– Concórdia/São Pedro).

O que ficou no ar

A verticalização avançou no Colégio Batista, mas as casas — a maioria bem preservada — ainda predominam. Aparentemente, pelo menos em dias úteis e nos horários de pico, o bairro é formado por jovens, por alunos. Entretanto, para a representante da comunidade, um olhar mais atento revela uma população adulta, mais idosa.

— Não sei das estatísticas, mas é perceptível. Na rua, na missa de domingo, e até no posto de saúde a gente vê a quantidade de pessoas mais velhas. Inclusive já estamos nos mobilizando para pedir a construção de um novo posto, para atender melhor os moradores.
Fazendo um balanço dos últimos anos, Dona Diva diz que as mudanças pelas quais o bairro passou, e que ela conhece tão bem, têm saldo positivo.

“Eu nasci aqui, tenho ligação afetiva com o bairro, com minha rua. Eu vi a Lagoinha nos tempos do Ginásio Paissandu, do Cine São Geraldo, tinha a Feira dos Produtores, a Praça Vaz de Melo (atual região da rodoviária)… Ali era região boemia, mas havia respeito. As pessoas sabiam diferenciar as senhoras das mulheres que viviam no meretrício. Tinha a moagem de fubá e o Café Brasil… O bairro inteiro cheirava café na hora da torrefação… Hoje cheira combustível, a fumaça dos carros”, lembrou saudosa.