Cidade Jardim (Vestígios de uma era de ouro)

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Fachada do prédio da antiga Faculdade de Odontologia, no bairro Cidade Jardim
Fachada do prédio da antiga Faculdade de Odontologia, no bairro Cidade Jardim
Bairro Cidade Jardim nasceu de uma ideia de Juscelino Kubitschek

Gustavo Lameira

Bons tempos aqueles! Destinado à classe A belo-horizontina, o bairro Cidade Jardim foi projetado entre os anos de 1940 e 1950, nas terras da antiga Fazenda do Leitão. O bairro teria sido mais uma ideia de Juscelino Kubitschek, então governador do estado, que o pensou no modelo norte-americano, das espaçosas casas de subúrbio, sem fechamento, com terrenos gramados, jardins, alamedas… Desejo atendido e, por algum tempo, padrão mantido. Os muros altos e aparatos de segurança, essenciais na atualidade, se encarregaram de mudar radicalmente a aura aristocrática que até os anos de 1970 ainda faziam a fama do bairro.

“As pessoas vinham de outros estados para conhecer a tal Cidade Jardim. Nos anos 50, 60, até 70, predominavam as construções de estilo moderno e pré-moderno, com linhas mais retas. Na década de 80, veio o colonial. Agora voltamos ao modernismo. Algumas casas aqui foram reformadas e têm fachadas em vidro, são mais tecnológicas…”, descreveu o arquiteto Edilson Maranhão, morador do bairro há 36 anos. Para ele, a tranquilidade — mesmo estando tão próximo do centro — e um bom setor de comércio e serviços são as principais vantagens. Lá também estão os colégios Loyola (uma das primeiras construções) e o São Paulo; a Faculdade Pitágoras; a Paróquia Santo Inácio de Loyola; o Museu Histórico Abílio Barreto; o Tribunal Regional Eleitoral (TRE); o Ministério da Agricultura e Abastecimento, entre outros.

Censo IBGE

De acordo com Censo do IBGE (2010), são 1528 moradores numa área de 0,50 km². De maioria adulta, o bairro tem a maior concentração de idosos da capital; 87% dos moradores se declararam brancos. Dos 593 domicílios, 69% são mantidos por uma só pessoa; nos demais, há compartilhamento de responsabilidades entre cônjuges, filhos, netos e outros graus de parentesco. Um recente redimensionamento da região Centro-Sul incluiu prédios de bairros vizinhos à Cidade Jardim, mas o predomínio ainda é de casas. São 220 ao todo, com terrenos de 1000m² e uma média de 700m² de área construída.

Museu Histórico Abílio Barreto dá um charme especial ao bairro
Museu Histórico Abílio Barreto dá um charme especial ao bairro
O lado B

Depois de quatro anos à frente da Associação de Moradores da Cidade Jardim, Edilson também sabe o que falta ao bairro. A partir da Lei de Uso e Ocupação do Solo (Lei n° 7.166/96) foram criadas ADEs (Área de Diretrizes Especiais) para Belo Horizonte. A da Cidade Jardim (Lei n° 9.563/08), entre outras coisas, regulamenta a altura das construções, delimita a área destinada ao comércio e tipifica essas atividades, cuida para que o alto índice de cobertura vegetal seja mantido; controla a poluição sonora e atmosférica; orienta sobre obras.

Na opinião do arquiteto, a lei engessou o bairro. “Eu não posso, por exemplo, trocar as janelas da minha casa, construir mais um pavimento… Só posso pintar e fazer reformas internas. Essa ADE faz exigências como se as casas fossem tombadas, mas sem os benefícios do tombamento. O IPTU do bairro gira em torno de 10 mil, mas nem 10% disso são aplicados aqui”, reclama.

A Cidade Jardim também se tornou estacionamento e atalho para outros bairros da região Centro-Sul e shoppings. “Solicitamos à BHTrans mudança de circulação nas entradas do bairro, para diminuir o fluxo. A empresa preferiu colocar o Faixa Azul. Isso atraiu os flanelinhas e, por consequência, aumentou o número de avarias e roubos a veículos”.

Vegetação

O bairro é talvez o que tem a maior cobertura vegetal da cidade, pelas casas, ruas, e em suas três praças, mas tem problemas com a iluminação pública. “As árvores são muito altas, de copas grandes, raramente podadas. Aí sugerimos baixar a iluminação, com o uso de postes de três metros. A Cemig achou coerente, mas a prefeitura ainda não autorizou”.

Na segurança, há promessa de implantação da Rede de Vizinhos Protegidos. “O programa é um benefício, claro. Mas pelo tamanho das casas, os muros altos e uma vizinhança que mal se vê, os apitos serão insuficientes. Precisamos de ronda regular da PM”, analisa. Segundo o morador, em 2012, foram quatro assaltos a residências. Pouco, se comparado a outros bairros da capital, sobretudo pelo patrimônio contido nele. O último e mais comentado aconteceu em novembro, na casa da empresária Ângela Gutierrez. Três homens armados renderam o motorista da família na entrada da mansão, e lá dentro fizeram 12 pessoas reféns, entre elas, Ângela; depois fugiram levando dinheiro e jóias. Ninguém se feriu. Neste caso, em poucos dias a polícia recuperou o que foi roubado e prendeu os suspeitos.

Alagamentos persistentes

O nome do bairro é uma possível referência ao seu projeto arquitetônico e à Belo Horizonte, conhecida na época como Cidade Jardim. Hoje, o período de chuvas é uma ameaça à capital, cada vez mais asfaltada, impermeável. Entra ano, sai ano, na Avenida Prudente de Morais, parte baixa da Cidade Jardim, comerciantes e motoristas sofrem e têm prejuízos com enxurradas e alagamentos. De acordo com a Sudecap, para melhorar a capacidade de escoamento da água do Córrego do Leitão, está em construção uma nova galeria, paralela à já existente na Prudente de Morais. Parte dos trabalhos é executada de forma subterrânea, para diminuir os transtornos. As obras vão custar R$ 32 milhões, e têm recursos garantidos pelo Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal (PAC 2). A previsão de conclusão é no final de 2013.

Obras na avenida Prudente de Morais visam evitar os alagamentos constantes
Obras na avenida Prudente de Morais visam evitar os alagamentos constantes

As ruas internas do bairro não têm problemas com a chuva, devido à topografia e “uma rede pluvial e sistema de esgoto de primeiro mundo”. A coleta de lixo também é privilegiada, feita seis vezes por semana, e em uma delas a coleta seletiva.

Mudanças de hábito
Comércio toma lugar de residências em vários pontos do Cidade Jardim
Comércio toma lugar de residências em vários pontos do Cidade Jardim

Edilson divide a casa com a mulher e, na parte de baixo, com entrada independente, tem seu escritório de arquitetura. Segundo ele, com a saída dos filhos, por emancipação, para o casamento, e com famílias cada vez menores, custa caro manter uma casa no Cidade Jardim. “Muitos têm se mudado para bairros vizinhos, como Santo Agostinho, Lourdes, Belvedere… Alguns vendem, outros preferem alugar”. E um comércio classe A avança pelo bairro. Há mansões-restaurantes, mansões-clínicas de estética, antiquários, imobiliárias, grifes de roupas etc. De acordo com Mônica Gontijo (Lar Imóveis), além da procura por pontos comerciais, há o aumento do interesse de casais jovens e novas famílias pelo bairro. O preço médio para venda das casas é de R$ 5 milhões; o aluguel varia entre 10 e 15 mil/mês.

As famílias mais tradicionais da cidade moravam ali, e algumas ainda moram. Entre os mais lembrados estão os Couto. O casal Alair e Zilda ficou famoso pelas festas, jantares e recepções em sua mansão de quarteirões, na Avenida Conde de Linhares. “Hoje, quase ninguém dá mais festas em casa, até as visitas são raras. Aqui ou em outros bairros, as pessoas têm preferido alugar salões de festa, as novas construções já vêm com esses espaços… Este ano (2012) fizemos o Natal aqui em casa; foi muito bom… Vieram os filhos, os netos todos… Fora isso, não”, contou Edilson.

Fachada da casa que pertenceu à família Couto
Fachada da casa que pertenceu à família Couto

A mansão da família Couto foi vendida, mas o Alair Filho (atual presidente da associação de moradores, e quem nos indicou o Sr. Edilson para essa entrevista) ainda mora no Cidade Jardim, numa “casa mais modesta”, por assim dizer. Outros tempos. “Alugar salão de festa não tem, nem de longe, o mesmo charme de receber em casa; mas, hoje é preciso pensar em segurança e em praticidade, pois ninguém tem mais aquele exército de empregados, mordomos, governantas, copeiras… O mundo mudou mesmo”, sentencia a promoter e mestra em etiqueta aposentada Letícia Beirão, sem disfarçar a saudade. “Bons tempos, aqueles”…