Chama o Pereirão

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Chama o Pereirão - Crônica de Eustáquio TrindadeLi, há muito tempo, uma entrevista da Sônia Braga — grande Sônia Braga, minha eterna Gabriela! — falando das delícias de morar em New York. Ela tinha um apartamento em Tribeca, um bairro que fica numa das partes mais nobres de Manhattan. Wall Street, pra se ter uma ideia, fica lá. Sônia, muito ao jeito dela, não falava de boutiques, de Victoria Secret ou de outlets. Menos ainda de points de gente famosa. Falava que o bairro era ótimo porque tinha mercearias, sapateiros, eletricistas, “gente que consertava pias, vazamentos”. Enfim, essas coisas que todo mundo que é normal sempre precisou.

Em Belo Horizonte, moro num bairro que tem tudo isso e, em vez da Wall Street, tem a Cristiano Machado, a mais infernal avenida já construída sobre o planeta terra. A única que está constantemente em obras e também a única em que passarelas para pedestres, colocadas há menos de um ano, já começaram a ser removidas para a implantação do misterioso BRT. Tudo em nome da praga da Copa do Mundo e pra gente ficar cismando sobre o que quer dizer a palavra ‘planejamento’, quando descobre que uma passarela que dizem que custou mais de R$ 3 milhões, não chega a durar nem um ano.

Voltemos, no entanto, a Sônia Braga e sobre morar em bairro que tem o que se pode chamar de serviços de primeira necessidade. Pra gente normal, volto a insistir.

Hoje de manhã, na entrada do meu prédio, encontrei dois rapazes fazendo trabalho de jardinagem. Na garagem, descarregando uma camionete, uma mulher de macacão cinza, boné e botinas.

— Já vi essa mulher…

No portão, curiosíssima, a faxineira do prédio, que assistia a cena, me cutucou:

— Olha o Pereirão ali!

A heroína da novela das nove, a operária padrão brilhantemente vivida pela atriz Lília Cabral. Bom, a princípio, a Pereirão do meu prédio não me pareceu muito com a da novela, mas por estar tão mais próxima, se mostrou mais real, mais confiável, de uma forma que só é possível quando a gente conhece certas pessoas e já quer logo conversar, saber tudo da vida delas. A moça estava ocupadíssima, descendo, sozinha, vasos e mais vasos — alguns bem pesados — da carroceria da camionete. Quando viu que eu a observava, abriu um sorrisão. Aí, me ganhou de vez. Cheguei mais, quis saber das plantas, do trabalho, enfim, fui inventando uma desculpa atrás da outra pra me aproximar daquela Pereirão de verdade.

Então, me contou que era uma das donas da empresa de jardinagem — os outros eram seus irmãos, os dois rapazes que estavam no jardim. A empresa fazia outras coisas também. No cartão, dizia que prestava serviços de bombeiro hidráulico, dedetização, aplicava sinteko, consertava persianas e ainda pintava paredes. “Sempre trabalhamos nessa região”, disse. Mostrou um guia de serviços em que se encontrava praticamente de tudo. Brinquei sobre sua semelhança com a heroína da novela. Aí, o sorriso aumentou mais ainda, pleno de modéstia, dessa coisa tão simples e ao mesmo tempo tão rara, que só um tipo muito especial de gente é que ainda consegue ter: gente normal.

Caminhei pelo bairro com outro olhar. Fora do baixo astral da Cristiano Machado em obras, as ruas escondem um roteiro de Pereirões que parece não ter fim. Tem a que conserta fecho éclair (ela não usou a palavra “zíper”) de mala; as cerzideiras; a que vai à casa da gente e faz prato pra congelar; a que — pasmem! — corta unhas de passarinho; a que ensina a arrumar armário; que ensina a tirar mancha da parede, uma que vende sianinha e ponto russo; uma que ensina a lavar as mãos (“tem que ficar pelo menos um minuto ensaboando e enxaguando, senão não mata os germes”)… E tem a Marcinha, essa que conheci na entrada do meu prédio, que usa macacão, boné e botinas e mesmo assim sabe sorrir faceira e feminina. Disse que há muitas outras, por toda Belo Horizonte. Que Pereirões não são ficção. Ainda bem!

PS
Ah, sobre o que disse quando falei da semelhança com a personagem da novela? Bem, modesta, disse que não se acha tanto.
— Mas tive mais sorte que ela, ainda não dei o azar de conhecer nenhuma Teresa Cristina…

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo

  • Maria Cecília

    Fantástico!!