“Cantar nunca foi só de alegria”

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“Cantar nunca foi só de alegria” Crônica por Eustáquio TrindadeUma vez, uma grande amiga minha me disse uma verdade (entre tantas): “a vida tinha que ter trilha sonora; cada pessoa deveria ter, ao longo de sua vida, uma trilha sonora que a acompanhasse sempre…”. Cada vez mais, Gisele, isso faz sentido. Pra mim, sempre fez. Desde minhas lembranças mais antigas, sempre foi assim. Menino, bem menino ainda, me lembro de que todas as manhãs tinha rádio ligado lá em casa. Minha mãe, que era professora, mas ainda não trabalhava fora, arrumava e rearrumava a casa de segunda a segunda, pra matar o tempo. E sempre com o rádio ligado. Rádio Nacional. Foi numa dessas que comecei a gostar de música, a ponto de nunca mais poder viver sem música. A primeira voz de que me lembro, entre tantas que me marcaram, foi a de um cantor chamado Blecaute, um pretinho retinto, que praticamente só gravava no carnaval. Deve ter sido num mês de fevereiro desses, então, que ouvi o Blecaute cantado uma engraçada marchinha que falava que “foi numa casca de banana que eu pisei, quase cai, mas a turma lá de trás gritou: tem nego ‘bebo’ aí”. Depois, o Blecaute foi dando lugar a outras vezes, outros tons não tão carnavalescos nem alegres assim.

Meu pai também gostava de música. Não dessas. Quando meu tio Fábio, irmão mais novo de minha mãe, se mudou pros Estados Unidos, vendeu tudo que tinha. Todos os irmãos ou cunhados compraram alguma coisa pra ajudar nas despesas da viagem. Meu pai comprou a radiola, um móvel lindo, imenso, com rádio e toca-discos, daqueles em que se usava agulhas descartáveis. Tocava-se uns dez discos e era preciso trocar a agulha. As agulhas ficavam em caixinhas de metal, lindas também. Uma coisa que, pra mim, era o suprassumo do chique. Mas o melhor de tudo foi que, com a radiola, veio também a coleção de discos de meu tio. Mais de mil, daqueles bolachões pesados, de cera. Meu tio tinha um gosto sofisticado. Bing Crosby, Jeanette McDonald, Bidu Sayão… Às vezes, no meio da semana, depois do jantar (ainda não tinha televisão em Itabira), meu pai chamava todo mundo pra ouvir música. Ali, esqueci o Blecaute e a trilha sonora da minha vida foi se formando numa sequência de imagens, sonhos e ansiedades que só a música é capaz de provocar. Dali, parti para minhas descobertas. Inquieto, ansioso, querendo conhecer mais e mais.

Um dia, não mais que um dia, um meio dia desses qualquer, em casa de minha mãe, levei um disco novo de Chico Buarque, que havia acabado de comprar. O disco tocou quase inteiro, sem que ela, em momento algum, manifestasse qualquer interesse. De repente, a vejo no portal da sala, de olhar tão estranho quanto intenso, as mãos apertadas, lívida, como quem tivesse visto uma assombração.

— Quem é esse cantor?

Mostrei a capa do disco. Ela se virou, sem dizer nada e foi pro jardim da casa, onde ficou horas, sem falar com ninguém. Na hora, não percebi nada, mas depois, alguém me contou: “foi por causa da música”. Rapidamente repassei a cena. Que música? Estava tocando ‘Pedaço de mim’ — “a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Ela já arrumava, todo dia. Hoje, arrumo eu. Com disco tocando, porque mesmo em momentos da mais profunda tristeza, não sei mais viver sem música. Não entro em desespero, ainda que, de vez em quando seja tão difícil resistir à tentação de gritar, de chorar e de perguntar aquilo que a gente já tá cansado de saber que nunca terá resposta, mas que vive perguntando assim mesmo. Enquanto espero uma luz que clareie o trem da minha vida, posso até cantarolar, acompanhado a eterna Elis, que pede a mesma coisa na canção do Renato Teixeira. E daí? Cantar nunca foi só de alegria…

Pra Stefano e Eloise. Pelo telefonema mais certo, na hora mais certa, mais necessária. E pra Gleice.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Katia Fernandes

    Apaixonada por histórias de família, de pessoas, achei lindo o texto. Lindo. Embora não me conheça, eu o conheço como professor da Newton Paiva. Sempre ouvia comentárioS sobre o professor Eustáquio Trindade, hoje sei porque era tão comentado.

    Grande abraço!

    Katia Fernandes