Bom dia, bom dia, bom dia…

0
390

Eustaquio02Pequenos momentos de cidadania são coisas que vão se perdendo no dia a dia das pessoas de uma forma tão apressada que, hoje, torna-se difícil até mesmo percebê-los em nosso cotidiano. Ou seja, nos acostumamos mais depressa ainda à ideia da barbárie que, sem eles, é inevitável. Há dias, conversei sobre isso com uma amiga, jornalista também, que me contou uma história interessante, que pintou com tintas e cores fortes. Não por ser jornalista, é claro, mas por ser uma pessoa viajada, culta, educada. Uma mulher fina, pra resumir a conversa. Contou que foi fazer compras no centro da cidade, onde ainda estão lojas de determinados segmentos que, há muito, já foram expurgados dos shoppings centers. “Lojas de aviamentos”, me explica, “onde se pode comprar uma sianinha ou um ponto russo pra arrematar um pano de prato”. Depois de explicar “sianinha” e “ponto russo”, retomamos o ponto central da conversa: como os pequenos exemplos de cidadania sumiram do cotidiano.

“Na mais popular loja de departamentos da área central” (leia-se Lojas Americanas e a observação, nesse caso, é por minha conta), me conta essa minha amiga, com a elegância de sempre, “nenhuma das vendedoras ou as que trabalhavam no caixa me respondeu Bom Dia — algumas sequer levantaram os olhos”. Daí que, a conselho de uma amiga, interrompeu o que deveria ser uma boa manhã de compras no centro da cidade e foi à Feira dos Produtores, na Cidade Nova, onde lhe asseguraram que também encontraria as mesmas lojas. Já com um pé atrás, começou a pesquisar a feira, que pode ser descrita como um Mercado Central menor e sem o fedor ou o baixo astral dos animais engaiolados. Lá encontrou as lojas que precisava. Mais: “encontrei gentileza; ao perceber que eu estava cansada, a dona da loja me ofereceu água e uma cadeira”. Efetuadas as compras, Ana, que assim se chama minha amiga jornalista, resolveu “explorar o lugar”, que até então, não conhecia. Explorar os cheiros, os humores, as cores, a diversidade. E, então me ligou, pois sabia que moro ali perto. Transformado numa espécie de guia, não me fiz de rogado. Passamos pelo café, onde se serve um café forte e de aroma ímpar, para ser degustado — essa é a palavra — com um biscoito de queijo assado, que havia acabado de sair do forno. Ambos servidos por moças simples e sorridentes. Depois, o tour continuou pelas bancas de frutas, pela barraquinha dos chás medicinais, dos produtos naturais, das iguarias árabes, fartamente temperadas com gentileza pelo proprietário, que a atendeu diretamente e a auxiliou na compra de dois potinhos de uma pasta especial.

Matamos a saudade um do outro e passamos uma tarde inesquecível. Disse que, pra ela, foi mais. Havia descoberto um ponto em que as pessoas ainda se lembravam das pequenas gentilezas do dia a dia. Da confiança, do poder que podem ter um sorriso franco e uma boa palavra para amenizar o sufoco do cotidiano. Como passo por ali pelo menos duas ou três vezes por semana, confesso que muito disso nem me cabia mais como novidade. Ou porque, talvez, na minha santa ingenuidade, eu ainda acredite que isso é (ou pelo menos deveria ser) uma obrigação na vida de todo mundo.

Cada vez que volto, me lembro desse encontro com Ana. E isso sempre me leva a pensar porque as relações pessoais, seja no trabalho ou nos raros momentos em que nos encontramos sem esse tipo de pressão, estão cada vez mais deterioradas.

Acabei de sair da feira, onde não abri mão de tomar um café e de dar bom dia pra todo mundo. Saí pra rua, daqui a pouco tô indo pro trabalho e, de alguma forma, descubro um inequívoco sentimento de impaciência e até mesmo de impotência dentro de mim (isso sempre me ocorre, toda vez que me imagino incapaz de mudar as coisas). Essa violência sem sangue que brota do barulho infernal, do sorriso fingido, das falsidades, essa é a pior de todas, é a que mata mais depressa.

Resta o consolo de, no sábado, voltar a ser feliz mais uma vez. Mas, até lá…

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.