Bicho no apartamento

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Bicho no apartamento - Crônica de Eustáquio TrindadeBicho no apartamento. Morreram El Danger e Chocolate, cachorros de moradores de um prédio vizinho. El Danger, pelo que pude saber, foi de velhice mesmo. Acho que descansou em boa hora. Dá pra imaginar um pastor alemão confinado quase o tempo todo numa minúscula área de serviço, dividindo o espaço com um tanquinho e uma máquina de lavar roupa? Apesar de ser um cachorro grande, acho que já não metia mais medo em ninguém, apesar dos latidos fulminantes, quando dava de surtar, bem no meio da madrugada. O dono, um advogado, até que dava um passeio ou outro com ele, mas o que é isso na vida de um pastor alemão, raça que sempre me passou essa ideia de periculosidade que todo cachorro encerra em si, digamos assim. Pelo visto, ninguém sentiu saudade.

Chocolate é outra história. Poodle daquele azul clarinho, mais ou menos do tipo do uniforme da seleção argentina de futebol, saia todo dia com sua dona, uma senhora gordinha, de óculos e cara fechada, que não cumprimentava ninguém nem respondia a “bom dia”. Ouvi a faxineira aqui do prédio contando que foi envenenado. Daí que mexeu com muita gente. Primeiro, a turma que acha que apartamento não é lugar pra bicho; depois, os que acham que é e que todo mundo que pensa o contrário é um potencial assassino de animais. A mulher que não cumprimentava ninguém, de uma hora pra outra, deu de cumprimentar e a fazer uma espécie de enquete pra saber quem era contra ou a favor. Só no meu interfone, tocou duas vezes. Se já foi inconveniente da primeira vez que tocou, da segunda passou dos limites, com a voz em tom de polícia. Levaram o bicho para uma clínica veterinária, onde foi feita a autópsia e veio, por fim o diagnóstico, dizendo que sim, que o cachorro morreu envenenado. Mas nada de hambúrguer temperado com veneno de rato; morreu envenenado pela tinta azul real lavável a que era submetido de quinze em quinze dias.
— Gente que faz isso com cachorro tem que ser presa — me conta uma amiga minha, Denise, que é veterinária se recusa terminantemente a aplicar tintura em cachorro.

Chanel, Dior e Givenchy, poodles coloridos que, toda manhã, desfilam alegremente pela minha rua, fazem aplicações quinzenais num pet shop do quarteirão de baixo. Um é verde limão; outro, azul clarinho, tal e qual o finado Chocolate; o terceiro, de um rosa pink, de fazer doer a vista. Os três habitam uma linda cobertura das vizinhanças e moram em três artísticas casinhas de madeira, cada uma identificada com a cor do dono. Também fazem as refeições sentados em cadeirinhas iguais àquelas que os restaurantes reservam para crianças bem pequenas. Sim, sim, as cadeirinhas também acompanham os donos em suas cores. As crianças da rua adoram quando a empregada da casa desce com Chanel, Dior e Givenchy em seu desfile matinal e a rua se alegra, cheia de cores… Bom, temos que reportar o que vemos.

Então, nem bem foi divulgada a causa mortis do infeliz Chocolate, sua antiga dona, a mulher que não cumprimentava ninguém, voltou a passear com outro bicho. A vítima atual me pareceu um vira-lata, daqueles bem chegados a revirar lixeira. Hoje de manhã, vi dona Sinhá acompanhando, atenta, o desfile da mal humorada e seu novo acompanhante. Daí que, sem que eu tomasse qualquer iniciativa, veio me falar sobre esse negócio de bicho em apartamento.

Do neto que tinha um ramster (“Um ratinho, pra falar a verdade”);
Do outro neto que tinha um iguana (“Um monstro”);
Da prima que tinha três gatos (“Por isso que ela morreu de asma”);
Da amiga que tem vários passarinhos (“Passam doença pros olhos”);
Do neto de uma amiga, o Manduca, seu afilhado, que tem uma jiboia (“Uma cobra horrorosa, que fica te encarando…”);
Cães, gatos (“É, tem que pensar duas vezes…”);Sobre cães e gatos, dona Sinhá não tem pontos de vista ainda definidos.

Fiquei conhecendo, por fim, o casal dono dos três alegres poodles que passeiam pelo bairro. O marido é estilista, tem uma griffe de roupas alternativas, o quer dizer que é um tipo de roupa só pra gente muito louca. A mulher, de cabelo moicano pintado na cor “cereja selvagem”, é hair style, que vem a ser cabeleireira mesmo, mas daquelas que não são pra qualquer um… Alegres, sorridentes, simpáticos, falantes. Contaram dos bichos, que têm um aquário de peixes ornamentais e que sua próxima aquisição será mais um poodle, agora macho, para fazer companhia a Chanel, Dior e Givenchy.
— De que cor vocês vão pintar esse poodle?

Eles ainda não sabem, mas não haverá falta de tempo nem inspiração para resolver. Ainda mais que amanhã, às 19h, numa nova igrejinha evangélica, que abriram na garagem de uma casa do vizinho bairro União, será celebrado culto solene em honra “da alma de nosso inesquecível irmão Chocolate”…

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo