-“BH ainda tem espaço para lançamentos de imóveis de todas as classes”

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Luis Fernando Pires, presidente do Sinduscon-MG

Engenheiro civil pela Universidade Federal Fluminense (RJ), em 1972; pós-graduado em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (RJ), Luis Fernando Pires trabalhou como gerente técnico da Superintendência da COSIPA (Cubatão -“ SP), de 1973 a 1977. Foi Diretor da IESA -“ Internacional Engenharia SA (1977/1994) e, atualmente, é Presidente e Controlador da MBR – Mascarenhas Barbosa Roscoe S.A – Construções. Ele afirma que Belo Horizonte tem espaço para lançamentos de imóveis de todas as classes sociais.

No Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais – Sinduscon-MG, foi diretor da Área de Obras Públicas (2003-2005); vice-presidente da Área de Obras Públicas (gestões 2005-2007 e 2007-2009). Atualmente é Presidente da entidade na gestão 2009-2012.

Apesar da agenda repleta, ele encontrou tempo para falar aos jornalistas Menoti Andreotti e Eustáquio Trindade Netto, do portal E-Morar, sobre o efervescente momento da construção civil e do mercado imobiliário em Minas e no Brasil. Fluminense, mas com um jogo de cintura digno de mineiro, não fugiu das perguntas e traçou um quadro tão preciso quanto esclarecedor da situação. E disse que, em Belo Horizonte, o mercado ainda tem muito espaço para crescer.

-“É possível crescer. Mas nós temos

que fazer crescer a infraestrutura de tudo”.

-“Agora, tem de haver providências em todos os níveis -” federal, estadual e municipal -” para trabalhar mais infraestrutura, pra não se perder essa oportunidade”.

E-Morar – Como o senhor está vendo o atual aumento da construção civil em Minas Gerais?

LFP -” Muito aquecido. Não só em Minas, no Brasil todo. Não conheço um período anterior em que houve uma valorização imobiliária tão grande no país. Nas pesquisas em que eu participo com os Sinduscons de todo o Brasil -” temos uma reunião por mês -” vemos que esse fenômeno não é só em Minas; é um fenômeno nacional de valorização imobiliária. É mais distribuído também, porque antes era apresentado só em algumas regiões. Hoje, o Brasil está crescendo mais distribuído. Norte, nordeste, sul, leste, em todas as regiões. É um fenômeno da economia atual, impulsionado por alguns fatores conhecidos e outros nem tanto.

E-Morar -“ Cite um exemplo de fatores conhecidos.

LFP -” O aumento de renda, aumento das possibilidades de financiamento, estabilidade da moeda… Mudança da legislação que possibilitou melhor processo da retomada de imóveis no, caso da inadimplência.  Então, tem alguns marcos aí que justificam a maior demanda do crescimento de investimento imobiliário. O que todo mundo pergunta é se vai continuar crescendo.

E-Morar – Há dias, no jornal Folha de São Paulo, o presidente da Abramati (Associação Brasileira de Material de Construção) disse que há uma demanda de construção de 20 milhões de novas residências até 2020. O senhor acha que isso é possível no Brasil? Que é possível em Minas Gerais, continuar crescendo desse jeito?

LFP -” É possível crescer. Mas nós temos que fazer crescer a infraestrutura de tudo. Você fala: bom, eles querem a construção, mas a energia é capaz de suprir? Nós estamos tendo bastante queda, a energia tem caído com facilidade e demora voltar. Outro dia, eu estava andando em Lourdes, bairro nobre de Belo Horizonte, e boa parte do bairro estava sem energia. Então, nós temos que fazer crescer a infraestrutura como um todo, senão começa a ter gargalo e aí acaba sendo prejudicial. Esse é um momento importante de crescimento. Se conseguirmos suprir carências… Nesses últimos 40, 50 anos, o Brasil deixou de ser agrícola pra ser urbano, então houve um êxodo muito grande do campo para a cidade e um crescimento da população em que demandas não foram supridas. Então, temos bolsões de moradias inapropriadas ao longo de todas as grandes cidades brasileiras. É um bolsão em volta das cidades, com moradias que não atendem os padrões mínimos de segurança, de habitação, de saneamento e tudo mais. Então há um grande investimento pra se fazer aí. Saneamento, vias de acesso, transporte, tem um conjunto de ações de infraestrutura para ser feito, para viabilizar essa oportunidade como um todo.

E-Morar -“ E dentro disso, qual a importância de programas como -“Minha casa minha vida”, do Governo Federal, para o setor imobiliário em Minas Gerais?

LFP -” É um programa importante, tem se construído muito no estado. No município de Belo Horizonte é mais difícil o processo de -“Minha casa, Minha vida”. De zero a três -” você tem três faixas: de zero a três; de três a seis e de seis a dez salários. O primeiro é a empreitada com valor definido, onde o Governo tem o maior subsídio. Então, pra isso ele precisa ter terrenos com valores acessíveis a esta faixa. Pra Belo Horizonte e região metropolitana é mais difícil por causa da carência de terrenos. Então a prefeitura está tentando viabilizar os primeiros grupos, está trabalhando para viabilizar outros terrenos, pra fazer mais moradias de baixa renda. Agora, no estado como um todo tem sido feito muito esse programa, que é bom, que ajuda muito a resolver essa deficiência, essa carência de mão de obra, esse déficit de habitação.  

E-Morar – Mas não é suficiente?

LFP -” Não é suficiente instantaneamente. Na realidade você está fazendo um conjunto de ações além dele… Há um monte de coisas sendo feitas em paralelo. Na medida em que o mercado tem demanda, os investidores privados estão fazendo diversos tipos de empreendimentos, em todas as faixas de renda. Estão fazendo -“Minha casa, minha vida”, mas também estão fazendo outros. Então está tendo um crescimento imobiliário de todos os tipos: residencial, comercial, em todos os aspectos.

E-Morar – Belo Horizonte ainda tem espaço para imóveis para a classe A e B?

LFP -” Tem e continua tendo lançamentos para todas as classes, A, B, C, D ou qualquer classe que se quiser designar. Então, tem o espaço e estão sendo feitos muitos imóveis. Nós tivemos uma carência por período, porque havia uma condição econômica e monetária que não permitia, se tinha mais dificuldades de financiar… Olha o que nós temos hoje: maior possibilidade de financiamento com taxas mais acessíveis, prazos mais longos, então passou-se a viabilizar coisas que não eram tão viáveis. Isso não é só para a área imobiliária, como também na dos automóveis. Houve um crescimento nessa demanda porque houve linhas de financiamento que possibilitaram, além do crescimento da renda. O que nós temos que olhar é que esse fato é um fato positivo. Agora, tem de haver providências em todos os níveis -” federal, estadual e municipal -” para trabalhar mais infraestrutura, pra não se perder essa oportunidade.

E-Morar -“ A falta da infraestrutura é o gargalo.

LFPEntão tem é que trabalhar o planejamento dessa infraestrutura como um todo. É nesse sentido que muita coisa está sendo feita. Só que, com esse nível de demanda, a infraestrutura não está vindo com a velocidade adequada pra esse crescimento. A infraestrutura é fundamental, temos que investir em tudo. Materiais, por exemplo. Tem que aumentar a capacidade de produzir materiais para atender a demanda. E mão-de-obra, nós temos que acelerar o processo pra formação de mão de obra para dar conta da demanda.

E-Morar – O advogado Kenio Pereira, que é nosso colunista, e também é dono de uma imobiliária, em uma de suas colunas afirma que está havendo overbooking no setor imobiliário, que as construtoras estão vendendo mais imóveis do que a capacidade que elas têm de entregar. Isso realmente está acontecendo? Por que está acontecendo?

LFP – Nós temos que trabalhar com dados e situações, não é?  Eu parto do principio que as pessoas são sérias, não se pode partir do princípio contrário. Eu parto do princípio de que os empresários são sérios, têm responsabilidades, que eles vão vender coisas que podem entregar. Vocês que são daqui conhecem os empresários, os que são bem sucedidos, predominantemente, são sérios. Mas existem dificuldades a serem superadas. Porque hoje, a entrega não sai de imediato, mas não por vontade do empresário -” ele tem que superar mais obstáculos do que ele tinha antes.

E-Morar -“ Não é uma questão de má fé.

LFP -” Não, não há má fé, de jeito nenhum. Então não podemos distorcer. O problema da demanda, da falta de mão de obra é um bom problema, podemos dizer até que seja um santo problema. Problema é o contrario; é você não ter demanda, ter que mandar todo mundo embora. A gente não pode querer crucificar o bom momento, nós temos é que resolver os problemas. -“Ah, tem demora na prefeitura?” -” Então, nós estamos atuando dentro da prefeitura para melhorar os processos, pra aprovar mais rápido. Tem demora nos cartórios? Estamos atuando num convênio junto com o governo do estado, pra atuar nos cartórios, para agilizar os processos. -“Ah tem falta de mão de obra?” -” Tem, mas nós estamos desenvolvendo cursos, treinos… A gente tem é que acabar com os problemas, ficar metendo pau não resolve nada.

E-Morar – Que tipo de material e equipamento está faltando e impedindo que as construtoras entreguem os imóveis a tempo?

LFP -” Não há falta, você tem um prazo mais prolongado. Uma coisa é pronta entrega; outra, a falta. Eu não tenho constatado, eu não tenho obra minha que está parada por falta de material nenhum. É mais demorado, não tem pronta entrega porque há uma demanda maior. É uma questão de planejamento. Se você não planejar com antecedência maior, você não vai achar de pronta entrega. Mas é claro que a cadeia está reagindo e se preparando para essa demanda maior.

E-Morar – Então o senhor acha que está faltando planejamento?

LFP -” É um processo que tem que caminhar junto.  A gente vai errando e acertando.  As empresas vão aprendendo a trabalhar na nova situação. Nós estamos nos acostumando a uma situação em que não havia esse tipo de problema.

E-Morar – Essa situação pegou todo mundo de surpresa?

LFP -” É claro! Nós vivemos aí, 22 anos, praticamente com a economia muito parada em termos de construção. Eu me formei em 1972, na época do milagre econômico, em que o país crescia a todo vapor. Depois entrou o pé no freio. A partir da década de 80, pé no freio. E nós passamos aí vinte e tantos anos com baixa demanda. Não há formação de mão de obra. Não há formação de novos funcionários. Não houve grande crescimento, tinha um crescimento vegetativo. Aí você tem agora um novo ciclo de crescimento, um crescimento de demanda.  Então tudo teve que ser readequado, mas isso não se faz num estalar de dedos.

E-Morar – Quanto tempo o senhor acha que isso vai demorar, uns dez anos?

LFP -” Se o crescimento se estabilizar nessa faixa, que eu acho que seria ótimo, de 5%, daqui a pouco, dois ou três anos, tudo vai estar engrenado para crescer nessa faixa. Todo mundo compra equipamento, aumenta sua produção… Você tem no seu portal tantos atendimentos; no início, vocês dois dão conta, mas daqui a pouco, quando se estabilizar, vocês vão colocar o número adequado de pessoas para atender a sua demanda. Então isso acontece em todas as áreas.

Em breve mais entrevista com Luiz Fernando Pires, presidente do SINDUSCON-MG.