Bairros – Parado no tempo: Falta de planejamento encobre benefícios de obras no Horto

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Cruzamento das avenidas Gustavo da Silveira e Silviano Brandão, no bairro Horto. Foto: Breno Pataro

Gustavo Lameira

O bairro Horto, na região leste, tem sua história e desenvolvimento ligados à Central do Brasil e à Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Na década de 1920, a empresa instalou ali sua oficina para reparo dos vagões. Para ficarem mais perto do trabalho, os ferroviários foram ocupando os terrenos próximos, alguns pertencentes à Rede, e eram maioria entre os moradores da época.

Quase um século depois, o Horto não é mais o mesmo nem mudou tanto assim. A maior parte das moradias é de casas, muitas construções antigas e pouca verticalização. No pacote de obras da prefeitura para a Copa de 2014, Horto e adjacências foram contemplados com a reforma do estádio do Independência, e a Via 710 (em execução), que sai da Avenida dos Andradas e vai até a Cristiano Machado. Para a região leste, ainda há a promessa de extensão do Boulevard Arrudas até o bairro São Geraldo.

Para o presidente da Associação Comunitária do Horto, José Raimundo, 50 anos, os benefícios esbarram na falta de planejamento.

— Estacionar no entorno do Independência em dia de jogo é um problema. As ruas são fechadas, até quatro horas antes; depois disso, só entra no bloqueio quem tem garagem e carro identificado. O resto tem que parar longe, e contar com a sorte. O pessoal já está tendo dificuldade até pra vender os imóveis.

O presidente da Associação Comunitária do Horto, José Raimundo, afirma que há dificuldades para vender imóveis no entorno do Estádio Independência

Outro problema, segundo José Raimundo, é a falta de banheiros químicos. “Os moradores foram autorizados a vender cerveja, mas não oferecem instalações sanitárias, como qualquer bar deve oferecer. Aí, no dia seguinte, fica o mau cheiro. A prefeitura limpa a rua, mas não lava as calçadas”, denuncia.

A Via 710, também chamada de anel intermediário, será uma alternativa para quem sai da região leste em direção à nordeste, facilitando o acesso ao Anel Rodoviário e à Cidade Administrativa. Mas na opinião dos moradores, o aumento do tráfego deve piorar a poluição sonora do bairro, já no limite.

— O trânsito aqui vai ficar muito pesado. Eles poderiam ter passado essa via pelo bairro São Geraldo, que é menos movimentado. A gente já sofre com o barulho da empresa de manutenção de vagões (MRS Logística)… Fora a confusão do Independência. De acordo com o Comitê Executivo Municipal das Copas (das Confederações e do Mundo), a Via 710 tem 4,98 KM de extensão, vai custar R$ 174,9 milhões e será concluída em dezembro de 2013.

Para a associação há intervenções mais urgentes a serem feitas, como o alargamento da Rua Gustavo da Silveira (gargalo no cruzamento com a Avenida Silviano Brandão) e obras de drenagem na mesma esquina — transtorno no período de chuva. A comunidade ainda pede a construção de uma passarela, para ligar a estação do metrô Horto ao Bairro Esplanada, e a mudança no local de construção da futura UPA leste (do bairro Vera Cruz para o Horto). Conforme a administração Leste, há duas obras de drenagem em andamento na região: uma na Rua de Barão de Saramenha, no Horto; e outra na Pouso Alegre, entre as ruas Bauxita e Formosa, no bairro de Santa Tereza, próximo à Avenida Silviano Brandão. Para a Silviano Brandão, no entanto, não há previsão de obras.

O lado bom, segundo Zeca, como é mais conhecido o líder comunitário, é o clima do bairro, onde os mais antigos se tratam por apelidos. A proximidade com o centro, o comércio e o setor de serviços também são privilégios. “O trânsito, aqui, não é perfeito, mas só agarra mesmo nos horários de pico”.

Estão no Horto: o Jardim Botânico da UFMG (o Horto Florestal, que deu nome ao bairro); as escolas técnicas SENAI, Professor Fontes e Plug Minas; a penitenciária feminina Estevão Pinto; o Centro de Internação Provisória Dom Bosco (FEBEM); a Paróquia Senhor Bom Jesus do Horto; o Galpão Cine Horto (casa do Galpão, um dos maiores grupos de teatro do mundo), e a Orquestra Filarmônica do Primeiro de Maio que, em anos dourados, animou bailes e tocou até para o presidente JK.

Polo moveleiro
A Silviano Brandão é uma das principais vias da região leste; coração do Horto e polo moveleiro de Belo Horizonte. São 350 lojas instaladas ao longo dos 4 km da avenida. Mas para quem sabe vender seu produto, “são 8 km de opções; quatro de um lado, quatro do outro”, retifica o empresário José Gomes, 81 anos.

O empresário José Gomes está há 36 anos no setor moveleiro do bairro Horto

“Seu” Gomes é um dos representantes dos lojistas da região, movimentada o ano todo. Para ele, as eventuais feiras e shoppings especializados em móveis da capital, têm público e produtos específicos; e por mais que liquidem, não ameaçam o diversificado comércio da Silviano Brandão. E o setor também se movimenta para a Copa do Mundo.

— Nossa intenção é atrair os turistas pra cá, da mesma forma que eles vão pra Inhotim, Ouro Preto, a Pampulha… Já solicitamos à prefeitura um micro ônibus, pra rodar só na Silviano, de ponta a ponta, vamos espalhar toldos pela avenida, fazer a propaganda.
E para garantir que o local não passe despercebido, “vão ser instalados portais nas entradas da avenida (nos cruzamentos com as avenidas Cristiano Machado e Andradas)”, acrescentou o Sr. Gomes.