Bairro Cachoeirinha quer segurança e obras

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Rua do Bairro Cachoeirinha, um dos mais tradicionais da capital mineira
Rua do Bairro Cachoeirinha, um dos mais tradicionais da capital mineira
Como tradição não enche barriga de ninguém, o velho Bairro Cachoeirinha quer segurança e obras para enfrentar o período chuvoso 

Gustavo Lameira

A região nordeste de Belo Horizonte foi de grande importância para a expansão industrial da capital, e o Bairro Cachoeirinha, o centro desse desenvolvimento. O bairro já existia, mas só a partir dos anos 1930, com a instalação das fábricas têxteis (Cachoeirinha e Renascença), chegaram a luz elétrica e o bonde. Como o sino da igreja marca o tempo nas cidades do interior, o apito da fábrica de tecidos fazia parte da rotina do Cachoeirinha, dividindo o dia em turnos, conforme a entrada e saída dos funcionários, a maioria moradora do bairro.

O aposentado Ciro Coelho, 65, trabalhou por 26 anos na fábrica, e se lembra exatamente do dia de seu fechamento. “Foi em 15 de fevereiro de 1995. A empresa faliu e foi arrematada por um grupo, num leilão. Éramos 1.850 funcionários. Nesse dia, fui o último a sair… Eu fechei o portão da minha seção”. Atualmente, a fábrica reduziu os serviços e emprega cerca de 250 pessoas.

Daquela época, resta o córrego que dá nome ao bairro. Correndo por uma avenida sanitária, a Bernardo Vasconcelos, o transbordar do Cachoeirinha é um problema crônico para a região. Sérgio Gontijo tem uma loja de som automotivo às margens da avenida. Seu prejuízo é certo no período de chuva — iminente. “No último ano, meu carro foi arrastado, e só não foi levado pela correnteza porque esbarrou numa caçamba. Já ajudei até salvar pessoas aqui. Para amenizar, dei uma elevada no passeio, fiz essa rampa, e a prefeitura ainda me questionou por isso”, indignou-se.

Placa adverte sobre motoristas em casos de chuvas fortes
Placa adverte sobre motoristas em casos de chuvas fortes

De acordo com a administração Nordeste, não há obras previstas para a Avenida Bernardo Vasconcelos. Como medida preventiva, desde agosto é realizada a limpeza do canal e das bocas de lobo. Mais eficaz é a placa de advertência que pede para evitar o local em dias de chuva.
O lado bom e coberto da avenida tem uma pista de Cooper de 1.300 metros, totalmente arborizada.

Residencial

O Cachoeirinha é um bairro residencial, pouco verticalizado, e de muitas construções antigas. Uma casa com três dormitórios, três banheiros e garagem para um carro, tem preço médio de R$ 450 mil (Tito Imóveis). Grandes empresas presentes são a Viação Pássaro Verde, a concessionária Mila e o Hospital Belo Horizonte.

Pista de cooper totalmente arborizada na avenida Bernardo Vasconcelos
Outros apitos no Bairro Cachoeirinha

A líder comunitária Terezinha Couto, 76, está no Cachoeirinha há mais de 40 anos. Em sua opinião, o trabalho da associação é fundamental para que as demandas do bairro sejam pelo menos conhecidas. Frequentando as reuniões da regional, algumas até com a presença do prefeito, ela percebe que apesar de maior acesso, a burocracia ainda emperra muita coisa.

— Há tempos estávamos pedindo um centro de convivência, um local pra fazer as reuniões da terceira idade, ginástica, aulas de reforço para crianças carentes, salão de festas… Conseguimos. A obra já estava garantida; mas, de repente, foi jogada para o Orçamento Participativo (OP 2013/2014). Agora a gente não sabe quando sai. Enquanto isso, estamos pagando pelo espaço, na igreja Nossa Senhora Da Paz.

Obras e quebra-molas

Reivindicação mais urgente é de um quebra-molas e de obras para o alargamento da Rua Senhora da Paz (entre Rua Resende e a Praça Irajá). A rua é paralela à Avenida Antonio Carlos, e serve de atalho para motoristas que, nos horários de pico, seguem para o centro e região leste, via Colégio Batista e Floresta. “Neste quarteirão, a passagem é muito estreita; as caçambas de obras ficam no meio da rua e os carros estacionados no passeio. Outro dia teve um acidente grave ali… Já pedimos, estamos aguardando”. A topografia irregular deu ao Cachoeirinha ruas íngremes e algumas ladeiras intransitáveis. Por isso, a representante da comunidade afirma ser necessária uma revisão da engenharia de tráfego para aumentar a segurança de pedestres motoristas.

Quatro linhas de ônibus atendem o bairro (8203/8208/8401/9801), além dos suplementares (81 e 82), “mesmo assim, a gente fica toda vida no ponto esperando”, reclama dona Terezinha. Responsável também pela Rede de Vizinhos Protegidos (parceria dos moradores com a PMMG), ela diz que o sistema ajuda a combater pequenos delitos e o tráfico de drogas crescente no bairro. “Quando a gente vê algum suspeito, apita, chama a atenção do outro vizinho; isso acaba espantando quem está mal intencionado. Enquanto isso, um terceiro já vai ligando pra polícia. Resolve, na maioria dos casos”.

Em uma casa de esquina
O compositor e jornalista Fernando Brant mora no bairro desde 1975

O compositor e jornalista Fernando Brant (um dos principais nomes do movimento musical Clube da Esquina) cresceu na região Centro-Sul de Belo Horizonte, e veio para o Cachoeirinha em 1975, depois de casado. No bairro, morou em dois endereços: primeiro com a sogra; e agora, e desde 1981, numa casa de esquina que ele mesmo construiu. “Aqui era muito sossegado; tinha aqueles meninos brincando de bola na rua, jogando finca, soltando papagaio”, lembra.

Bem instalado e acostumado ao bairro, Fernando nem pensa em se mudar: “trabalho em casa, quase não vou ao centro, e quando vou, conheço os atalhos todos da região”. Mas nota um setor de comércios e serviços deficiente. “Tem um sacolão muito bom aqui na esquina. Fora isso, pra qualquer outra coisa que a gente precise, tem que pegar o carro”.

Vez ou outra, o Cachoeirinha serve de inspiração para suas crônicas, entretanto, nada é mais como antes.

— Barulho não tem aqui, também nunca fui assaltado; mas a rua tem pouco movimento, é mal iluminada… Eu sou do tempo em que as casas tinham muro baixo, e já tive que subir o meu, botar cerca elétrica.

Segurança 

De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (ABESE), o Brasil está entre os líderes no mercado de segurança privada nas Américas, com mais de 1, 5 milhão de profissionais registrados. Samuel Neto (SN-Segurança Eletrônica) deixou a manutenção de computadores (praticamente extinta como atividade exclusiva de empresas, pós internet) para trabalhar com segurança eletrônica, cada vez mais necessária. “Em Belo Horizonte, existe o que chamamos de ladrões oportunistas, diferentes dos que agem em São Paulo, onde a criminalidade é mais organizada. Aqui o cara usa droga, junta uns amigos, rouba um carro e sai pra assaltar. Ai, quando percebem que o local não tem qualquer sistema de segurança, eles entram mesmo”, explica.

Um sistema de segurança para condomínios (com cerca elétrica, alarme e câmeras com arquivamento de imagens e transmissão via internet) custa em média R$ 4.500. A lucratividade do negócio fica evidente nos noticiários, que garantem parte da audiência à custa dos circuitos internos de padarias, farmácias, supermercados e afins. “Os sistemas oferecem segurança até certo ponto, mas funcionam perfeitamente como um inibidor. Os roubos e assaltos que aparecem na TV só estão lá por causa das câmeras… Agora imagina quem não tem?” — questiona Samuel.

  • Neirivaldo lopes

    Que bacana cara vcs são mto profi…