Aparatos de segurança para casa própria

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Crônicas do Habitat – Eustáquio Trindade Netto

A escola tinha horta e até um pequeno pomar. As crianças ficavam ali para semear, ver a plantinha germinar, dar frutos. Uma forma de, segundo as pedagogas, interagir com a natureza. Certo dia, resolveram povoar a horta e o pomar com animais domésticos de mentira. A ideia era fazer com que cada aluno desenhasse um bicho de cartolina, e esses bichos seriam depois recortados e espalhados pela horta e pelo pomar, para recriar uma espécie de sítio. Uma fazendinha de brinquedo. A Pedrinho, de oito anos, coube desenhar uma galinha. Ele entregou à professora o desenho de uma coisa que lembrava um saco plástico comprido e arredondado. Ou seja, que não tinha pé nem cabeça. A professora quase pirou.

— Mas, Pedrinho, onde foi que você viu uma galinha assim?

— No freezer da minha mãe.

Professora, pedagoga, vice-diretora e diretora reunidas não sabiam o que pensar. Nunca havia passado pela cabeça de ninguém que um menino tão bonitinho, filho de pai engenheiro e mãe psicóloga, pudesse confundir galinha com uma coisa amorfa, sem cor, como a que estava no desenho. A professora insiste, pergunta daqui, pergunta dali e, por fim, chega a uma conclusão: a única imagem da ave, para o menino Pedrinho, era a da galinha morta que, vez por outra, ele via no congelador. Pedrinho nunca, em toda sua vida, havia visto uma galinha viva. Aí, veio a reunião de pais e mestres. O casal é chamado de lado e, cheia de dedos, a zelosa pedagoga conta o drama — “como é que pode um menino jamais ter visto uma galinha viva?”.

É nessas horas que a gente vê como é bom ter mãe psicóloga e pai engenheiro. A mãe tratou de explicar tim-tim por tim-tim.

— Ah, não estressa, não! Moramos em um condomínio fechado. O máximo que se permite lá é cachorro; e mesmo assim, só se for pequeno e de raça que late pouco. Bicho de espécie nenhuma, além disso. Mas, naturalmente, em desenhos ou na televisão ele já deve ter visto, sim, uma galinha viva. Só que essa ideia de reproduzir uma galinha congelada talvez seja uma forma dele se exprimir, de dizer que é um menino que vive em um condomínio urbano e fechado.

Que pedagoga que é boba de discutir com mãe de aluno que é psicóloga, rica e mora em condomínio fechado? Para, então definir que estava tudo bem, perguntou, mas só por perguntar, se era realmente tão bom assim viver em condomínio fechado. Aí, foi a vez de o pai engenheiro responder. Um pai jovem, ainda garotão, de camisa Lacoste, falante como poucos.

— É ótimo. Temos tudo lá: agência bancária, posto dos correios, academia, sauna, churrasqueira, espaço gourmet, um pequeno posto médico, jardim de inverno, pista para caminhadas, snowball, skate, basquete, vôlei, futebol soçaite… Eu mesmo, que sou projetista, trabalho em casa, com um computador. Não precisamos sair pra nada. É o lugar mais seguro do mundo.

Atônita, quase catatônica, a pedagoga foi convidada a conhecer o paraíso. Topou na hora! Mas só por curiosidade.
Foi, então, agendado um fim de semana. Deu tempo para que a pedagoga fosse a um salão de beleza e providenciasse a indispensável escova progressiva.

— Em casa de gente rica, a gente tem que dar um trato no visual.

O lugar era, realmente, um luxo. Dois porteiros, dois manobristas, uma cicerone que a levou até o apartamento do casal, cruzando um pequeno bosque, uma piscina olímpica, quadras de tênis, churrasqueiras, miniparques, pracinhas, salões de jogos… “Meu Deus, isso aqui parece uma cidade”! Depois de bater pernas por uns bons quinze minutos, chega, por fim, ao elevador que a levaria ao apê. Um por andar. Antes, porém, passou por um detector de metais, raios X, deixou a identidade na portaria, assinou o nome e deu o número do CPF. Por pouco não pediram o PIS/PASEP e a carteira de motorista… A sala do apartamento, só a sala, era dez vezes maior que sua casa inteira, incluindo a área de serviço e o quintal. Jogos de sofás criavam ambientes distintos, sofisticados, chiquérrimos. “Será que posso pisar nesse tapete”, interrogava-se, aflita e já arrependida de ter aceitado o convite. Surge o casal. Ele, de branco, como um jogador de tênis; ela, num Ronaldo Fraga da hora.

— Um chá? Água? Evien ou Don Pellegrino? Algo mais forte… Afinal hoje é sábado! Um champanhe!

Decidiram por ela e veio o champanhe. Em que lugar do mundo uma pedagoga, com esse salário de fome, vai beber champanhe numa tarde de sábado? Champanhe, canapés, moça de vestido preto e avental de imaculado organdi branco — mesmo pano da touca — servindo toda sorridente. E toca ao pai engenheiro explicar as vantagens do condomínio. “Temos de tudo aqui, mas o mais importante é a segurança”.

— Temos um circuito interno de TV que monitora imagens da rua em todas as direções. Então, não importa que a pessoa venha da direita ou da esquerda, na mão ou na contramão, o veículo é imediatamente monitorado, fotografado e as imagens enviadas para uma central especial, que faz uma varredura estratégica, capaz de determinar a marca do veículo, o modelo, o ano, a placa e o nome do proprietário.

E tome de mais segurança para casa. Contou que, dos portões pra dentro, todos continuavam monitorados.

— Assim que eu passo do portão, há oito jogos de câmeras que enviam imagens tridimensionais minhas para um computador central, onde uma equipe de profissionais de segurança me acompanhará até que eu entre em casa. Em perfeita segurança.

— Mas aqui dentro não tem mais câmera? — ousou perguntar, apavorada.

— Como não? Em alguns cômodos, como esta sala de dez ambientes, a cozinha e a despensa, temos também imagens que nos ajudam a controlar empregados (“hoje em dia não se pode confiar em ninguém, não é mesmo?”), as visitas… — A pedagoga sentiu que começava a surtar, só de pensar de que forma suas imagens seriam avaliadas depois que ela saísse. “E se sumir alguma coisa aqui e pensarem que fui eu?”. E o pai engenheiro não parava.

— Lá fora, temos um programa de vigilância especial, com laser e raios infravermelhos, invisíveis para os criminosos, mas que denunciam qualquer tentativa de entrada no condomínio. As paredes são pintadas com uma tinta especial, com chips, onde nano robôs nos avisam de qualquer estranho que se aproxime do prédio com segundas intenções…

“Meu Deus, eu ter que passar por tudo isso só porque o menino nunca viu uma galinha viva”, pensou. E bem a tempo, imaginou uma desculpa e resolveu dar o fora o mais rápido possível. Enquanto descia, monitorada pela cicerone, pelas câmaras e pelos seguranças, sentiu que dezenas de olhares, que nem flechas, perfuravam sua pele, provocando uma dor diferente, que doía lá dentro, na alma. Foi quando percebeu que as flechas, na verdade, eram os olhares dos senhores condôminos, todos perfeitos, impecáveis em seu éden de segurança, procurando identificar quem era a moça morena de cabelo com escova progressiva — “ainda usam isso, é?” —, calças jeans, blusinha das lojas Marisa e bolsa da feira de artesanato. Percebeu bem a tempo de chegar ao portão e sair para a maravilhosa insegurança da vida, o quanto era rara e especial. Simplesmente porque estava viva.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.