“Alugo apartamento para a Copa do Mundo ”

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Para Francis Melo e Magal.

"Alugo apartamento para a Copa do Mundo" - Crônica por Eustáquio TrindadeOuvi a frase de um amigo meu, na semana passada. “Mas” — ponderei — “ainda falta muito tempo para a Copa do Mundo, rapaz”. Meu amigo, então, veio com uma enxurrada de argumentos para provar que a hora é agora. E como quem sabe faz a hora… Mas, e a crise na Europa? “Nada disso, até a Copa, eles já estarão recuperados”. Então, contou que já está fazendo pesquisas sobre os europeus, seus hábitos, suas manias, seu jeito de ser. Fez uma lista sem fim de itens que deverão ser adquiridos para que os possíveis hóspedes se sintam em casa. Observei que a Europa é um mosaico, tem todo tipo de gente, culturas diversas e nada afins, o que, em última hipótese, demanda saber com antecedência que tipo de hóspede ele terá. Uma casa aconchegante para um alemão será a mesma para um italiano? Wagner e Verdi sob o mesmo teto?
Meu amigo não é um homem letrado. Também não é desses que vivem contando vantagens. É um homem modesto, de origem simples, um contador que veio do interior, só com o curso ginasial e deu duro pra subir na vida. Por isso, se orgulha muito do muito que já conquistou. E com toda razão. Três carros na garagem, os filhos já na universidade, a mulher outra vez jovem, renovada por meio de uma providencial lipoaspiração, e mais aposentadoria privada e um futuro garantido. Além disso, mora numa ampla cobertura, com churrasqueira, sauna, boa vista para a Cidade Nova (“De lá, não dá pra ver nenhuma favela”). Junto com toda a família, está treinando a empregada no idioma espanhol e vai transferir a patroa e os dois filhos para o segundo apartamento que possuem, no mesmo bairro, quando chegar a hora. Tudo no afã de dar todo conforto e alegria aos europeus. Com toda paciência do mundo, vou seguindo seu tão empolgado quanto ingênuo raciocínio.
Está fazendo pesquisas diariamente na internet. Já pesquisou as marcas de massas e azeites preferidos pelos italianos. Vai desencaixotar o aparelho de fondue jamais usado, caso os hóspedes sejam suíços. O mesmo vai acontecer com o serviço de chá, da mais fina porcelana, se os ingleses forem os premiados. E tome de samovares para os russos (“Nunca se sabe…”), de sopeiras e terrinas para que franceses façam sua boillabaisse, canecões de chope para os alemães e assim por diante. De sua pesquisa foram, até agora, eliminados apenas os gregos — “esses não vão sair da crise” — vaticina. No momento, sua pesquisa está na Escandinávia, o que explica um pouco sua inquietude. O que para ele seria um território de idioma e hábitos comuns vem se revelando um quebra-cabeças nada fácil de montar. Arenques defumados, Absolut, renas, Nokia, Santa Clauss…
— E esses finlandeses, rapaz, que diabo de língua falam?
A pergunta me deu a oportunidade de contra-argumentar quanto à utilidade ou não da empregada falar espanhol. Crise por crise, ao que se sabe a Espanha anda quase tão mal das pernas quanto os gregos. Tanto que nem o Barcelona tem vencido ultimamente.
— “Nesse caso, restam os argentinos”, ponderei, tentando ser útil.
Ele já fez e ainda faz trabalhos de contabilidade para uns argentinos, donos de um restaurante na Savassi. Diz que são gente boa, mas, desde que o Estudiantes, de La Plata, tirou a Libertadores do Cruzeiro, em pleno Mineirão, ficou meio assim com eles: “Os argentinos, só em último caso”.
Por isso, retornamos ao continente europeu. Ele, com a esgrima digna de um inquisidor, querendo arrancar de mim alguns segredos da brava gente do Velho Mundo. Vou me explicando como posso, me lembrando de uma frase que li num velho Monteiro Lobato (acho que “História do Mundo para crianças”), proferida pela sábia Dona Benta: “Cada roca com seu fuso, cada povo com seu uso”. Irlandeses, búlgaros, sérvios, holandeses, húngaros, eslovacos, tchecos, romenos, poloneses, escoceses, dinamarqueses, belgas… cada um fala um idioma diferente, portanto, cada caso é um caso. Senti, pela primeira vez, que meu amigo fraquejou.
— Rapaz, mas essa Europa, hein!
Mas como amigo é pra essas coisas, volto a botar lenha na fogueira dele. No mínimo, tem que pensar na cultura geral que está adquirindo com essas pesquisas todas. Ele e a mulher dele, que é de família de origem espanhola e agora já sabe que a Catalunha e a Andaluzia não são a mesma coisa. “Quer dizer, até que são, tudo ali é Espanha, mas cada uma é uma”, afiança, cheio de um ímpeto quase juvenil. Estimulo não só a pesquisa, mas também o projeto de alugar o apartamento durante a Copa. Sugiro abrir o leque. Se a crise que assola a Europa ainda é uma incógnita, que tal pensar nos que, pelo menos em tese, permanecem mais distantes dela?
— Quem?
Os brasileiros, ora! Não colou. Para meu amigo, brasileiros são, antes de tudo, torcedores do Náutico (quem torce pro Náutico é o quê?), uns são-paulinos, flamenguistas, santistas, vascaínos, botafoguenses, corintianos, palmeirenses, gremistas…
— “Possivelmente até atleticanos, se o hóspede vier do interior de Minas”, lembrei.
— “Não, mil vezes não” — O brado foi tão retumbante que repercutiu nas mesas vizinhas.
A essa altura, meu caro leitor já percebeu que a conversa se desenvolveu numa mesa do Bar do Magal, point do Baixo Cidade Nova, um habitual reduto só de gente fina, sincera e elegante. Dali mesmo, meu amigo sacou do celular e ligou pra dona Yolanda, sua abnegada esposa e, agora, parceira de pesquisas, orientando mudanças no rumo das investigações.
— Yoyô, vamos pro Plano B; entra no Google e olha o quê que tem na China e na Coréia do Sul. E fala pro Jorginho (o filho mais novo, que estuda publicidade) pra ir bolando um anúncio que diz que não alugamos para brasileiros.
Essa Copa promete!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Marcelo T. Martins

    Quem frequenta o Magal é a elite intelectual.Faço parte.