Aluga-se loja (preço bem em conta: só R$ 12 mil!)

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Um casal de amigos está, há seis meses, tentando vender uma cobertura na Cidade Nova. “Mercado tá difícil”, me conta Rogério Dias, corretor, lembrando que preços muito acima da realidade podem ser a causa da demora. Segundo Rogério, o casal quer R$ 800 mil. O prédio é novo, tem duas vagas na garagem, mas…

— Não há dinheiro que chegue pra comprar imóvel. Hoje, com cem mil, não se compra nem barracão de zinco na favela.

"Aluga-se loja (preço bem em conta: só R$ 12 mil!)" Crônica por Eustáquio TrindadeVerdade. Dias atrás, o mesmo Rogério me contou que apartamentos de um milhão de dólares deixaram de ser novidade em Beagá — hoje existem até no Bairro União, de classe média baixa. Também deixaram de ser novidade nos bairros Ipiranga e Palmares, onde já há oferta de Torres com equipamentos de lazer que incluem até duas quadras de tênis. Agora já falam em apartamentos de cinco, seis, até dez milhões. Na região Nordeste, Bairro Silveira, semana passada, vi um de 650 mil — três quartos e uma suíte, duas vagas na garagem e mais nada demais. Um amigo meu que comprou. Entrou com o FGTS dele, da mulher, de dois filhos e ainda faltou dinheiro. Mesmo em bairros sem muita infraestrutura, os preços estão nessa maré, tsunamicamente acima do mercado. Depois de comprado o apê de 650 mil, mais um financiamento para reformar. E, isso, num bairro onde é preciso atravessar a avenida Cristiano Machado para ter acesso à infraestrutura muito superior da Cidade Nova (bancos, supermercados etc.). Silveira é um bairro muito interessante, mas, em termos de serviços, ainda deixa a desejar. Palavras do próprio corretor.

Os aluguéis vão na mesma marcha. Um conjunto de lojas na avenida Alberto Cintra, o novo corredor etílico-gastronômico da região, estava por 12 mil cada uma. Na verdade, 17 mil, mas como ninguém topou, o dono baixou para 12. E duas dessas lojas já foram alugadas. Esses aluguéis altíssimos e decididamente fora da realidade interferem por inteiro na vida do bairro. Na mesma avenida havia, até pouco tempo, uma loja de material elétrico, com serviço domiciliar de eletricistas e com todas aquelas utilidades que esse tipo de comércio tem a oferecer. A vida de um bairro, qualquer bairro, depende muito disso. A Cidade Nova tinha bombeiro, sapateiro, eletricista, jardineiro, gente de confiança, que se tornava amiga e prestava serviço de primeira. Agora tá mais difícil. Ou tem que buscar no vizinho Bairro União ou mais longe ainda. Porque o mercado não tem espaço para o pequeno comerciante. A loja de material elétrico, por exemplo, migrou para dar lugar a mais um restaurante do polo gastronômico, que atrai centenas — quase milhares — de pessoas nos fins de semana. Faça chuva ou faça sol. Durante a Copa vai ser um Deus nos acuda!

Dona Sinhá mora na Cidade Nova há mais de 30 anos e está desolada, desde que não conseguiu mais encontrar o telefone do eletricista Caio César.

— Eu saía de casa, deixava a chave com ele enquanto ele trocava a resistência do chuveiro, e era como se tivesse deixado com uma pessoa da família. Só que, agora, subiram demais o aluguel da loja dele e ele foi morar em General Carneiro. Assim, fica difícil atender no nosso bairro.

O mesmo aconteceu com o Juvenal, amolador de facas e tesouras. Com a Lili, que fazia jardinagem, com o Ronaldo sapateiro e o Delfim bombeiro. Todos foram forçados a deixar a região e se mudaram para a periferia. Até o Ademir, que consertava fogão como ninguém.

— A tendência é irreversível — sentencia Rogério Dias. “Quem precisa de tanto restaurante?”, contrapõe Dona Sinhá.

Tudo isso interfere também na paisagem humana do bairro. Os moradores agora dividem espaço com gente que veio de outras regiões e trouxe junto um trânsito caótico, que tornou o até então pacífico hábito de estacionar em façanha digna de super-herói. E tome de poluição sonora, de buzinaços, de torcidas organizadas, de falta de sossego, de ter que investir cada vez mais em cercas elétricas, circuitos internos de vigilância. A vida do bairro se transforma. Para pior. Qualidade de vida? Se já não era tanta, agora foi-se de vez.

A região era conhecida também pelo grande número de casas. Era. As que ainda não foram demolidas para dar lugar a prédios de três ou quatro andares, agora são imobiliárias, escolas e até lava jatos. Silvana Mancini vendeu a casa para uma escola e foi morar em Santo Antônio, a conselho de amigos. Mesmo se sobrecarregando de dívidas, comprou um apartamento pequeno, em prédio meio velho, só com uma vaga na garagem, mas movida pela sensação de morar perto da Savassi, num bairro da Zona Sul. Nos fins de semana, morta de arrependimento, vem matar saudades na Feira dos Produtores, na avenida Cristiano Machado. Não conseguiu se adaptar aos morros de Santo Antônio, que também tem muito boteco e muito barulho, além da mesma falta de segurança — “Já fui assaltada duas vezes, na saída da padaria”. O problema é que, agora, os preços na Cidade Nova triplicaram e Silvana não consegue mais encontrar um casa como a que tinha antes. E ela bem que tentou.

— Para recomprar, teria que gastar uma fortuna. Nem vendendo o que tenho em Santo Antônio.

Mas ela encontraria também um bairro diferente. Os novos e irreais aluguéis estão mudando a cara da região — e as mudanças, já em curto prazo, se fazem sentir. Estão no rompimento de laços mais profundos, em tramas carinhosamente tecidas anos a fio, cheias de amizade e confiança, que é como deve ser o relacionamento entre vizinhos. Torres, hotéis, falta de estacionamento, torcidas organizadas, espetos, parrilladas, cervejas importadas, sushis, pizzarias e afins podem até dar ao bairro um ar mais cosmopolita, mas estão tirando dele seu maior encanto, a nunca dispensável cara de cidade do interior, que sempre foi sua marca registrada.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.