Administrar bem é só fazer obra?

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Administrar bem é só fazer obra? - Crônica por Eustáquio TrindadeÀs vezes, não é nada fácil falar da rotina. Principalmente quando isso é uma experiência pessoal que, por força das circunstâncias, se repete diariamente em nossas vidas. Falo em meu nome e, acredito, no de milhares de pessoas que vivem na cidade de Belo Horizonte nos dias de hoje. Começo com uma pergunta que, ao longo dessa conversa, tentarei responder: administrar bem é só fazer obra? Como não sou dono da verdade, ampliei o espaço para que outras pessoas também pudessem opinar.

Meio dia e quarenta, pego um táxi pra ir ao trabalho. Em dois minutos começa meu pesadelo, pois é o tempo que gasto para cair no inferno, quero dizer, na avenida Cristiano Machado, a qual percorro por trezentos metros. Ontem, levei exatos onze minutos para percorrer esse trecho. Contenho minha indignação para o meu próprio bem e cheguei até mesmo a dizer qualquer coisa do tipo “obra é uma coisa chata, mas tem que ser feita”. Isto porque percebi sinais crescentes de impaciência no jovem motorista, pela batucada que começou a fazer no painel do carro e quando me perguntou se eu me incomodava dele acender um cigarro.
— Não, mete bronca.

Deu tempo de fumar o cigarro inteirinho. Engarrafamentos nesse trecho da avenida são constantes, mas o de ontem… Será que houve algum acidente? São máquinas na pista? Por fim, conseguimos sair do inferno e entramos pelo bairro Silveira, pra depois pegar a rua Salgueiro, que nos levaria à rua Descalvado e, por fim, às avenidas Bernardo Vasconcelos e Américo Vespúcio, onde, no momento, estão fazendo obras de recapeamento. “Toda vez que tem eleição se aproximando eles fazem isso”, me diz o motorista, como se eu já não estivesse cansado de saber. Bom, depois de ter saído do inferno, aliás, Cristiano Machado, imaginei que a Américo Vespúcio seria o purgatório. Nada disso, ficamos vinte e dois minutos detidos nessa avenida, que nem é tão longa assim, dá pra ser percorrida em cinco minutos, apesar dos sinais de trânsito e dos quebra-molas. Por que não fazem esse trabalho à noite? “Pra não pagar adicional noturno”, diz o motorista. De novo enfrento suas preocupantes demonstrações de fúria e impaciência, mas imaginando como deve ser o dia a dia de quem trabalha o dia inteiro enfrentando esse trânsito. “Que país é esse?” — Sem o Renato Russo pra nos ajudar na resposta, tomo a iniciativa de mudar os rumos da conversa para ver se acalmava de vez os ânimos do rapaz, que me contou que estuda à noite, na mesma faculdade em que sou professor. Ele cursa administração de empresas. “Curso bom, com ótimo mercado de trabalho”, pondero, pra ver se animava o coitado. Não adiantou muito, mas, enfim, saímos do que eu achava que era purgatório, mas tinha virado inferno, e, alguns minutos depois, chego ao meu local de trabalho. Quarenta e cinco minutos depois!

Paro na lanchonete ao lado para comprar uma garrafa de água mineral e ouço a conversa de dois rapazes que estavam na fila do caixa.
— “Não dá, a cidade tá inviável”;
— “Minha tia foi ameaçada, teve que mandar quatro funcionários embora, porque a avenida Santos Dumont também tá igualzinha à Cristiano Machado: ninguém para mais lá e a loja dela vai ter que fechar”.

O senhor que tomava conta do caixa intervém e também reclama: dois funcionários dele pegavam ônibus lá e, com as obras, começaram a se atrasar. Um deles é uma garçonete baixinha, simpática e risonha, que, do lado de lá do balcão, diz que agora tem que sair de casa uma hora mais cedo.
— “E isso vai até 2014”, sentencia um rapaz. Me ponho a cismar, soterrado por uma onda incomensurável de desânimo, sobre como será viver aqui até o fim desse arrastão de infortúnios. Busco uma resposta para a questão que eu mesmo propus, no início dessa conversa. Em vão!

Alguém fala em planejamento. Pensaram nisso quando ouviram as reclamações dos comerciantes da avenida Santos Dumont, centro de comércio popular, condenados agora a prejuízos e falências? E lá, as obras ainda vão durar seis meses! Pensaram no que disse o assaltante de um mercadinho da Cidade Nova à dona da loja, quando ela perguntou por que ele fazia aquilo e ele respondeu que o bairro era o melhor para ser assaltado porque, com as obras na Cristiano Machado, a polícia demora, não tem como atender com rapidez?

Administrar significa também cuidar, tomar conta, zelar pelo bem estar. Não há obra nenhuma, por mais necessária que seja, que justifique esse descaso, que justifique condenar a população a esse desconforto diário. E não venham com as desculpas de sempre, aquelas do tipo “estamos trabalhando para você e blá-blá-blá-blá-blá-blá”! “Desculpas”, me reitera o jovem motorista de táxi, “não tiram a culpa”. Não mesmo!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.