A senzala pós-moderna

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Vilacy e Eredilce são empregadas domésticas. Ontem, as duas foras dispensadas pelos patrões. Passaram, de manhã, aqui pelo meu prédio, onde pararam para conversar com Dona Sinhá, que tem diarista, que trabalha só duas vezes por semana.

Eustaquio02— Do jeito que ficou essa lei, só quem for muito rico é que vai conseguir pagar empregada —, concorda Dona Sinhá, aconselhando as meninas a trabalharem como diaristas: “Se planejar direitinho, dá pra tirar até mais”. As moças não concordam. Argumentam que a diarista não tem hora extra, não tem férias, não tem fundo de garantia, não tem adicional noturno, não tem carteira assinada. “E se mora longe, não tem onde ficar”. Dona Sinhá é, por fim, forçada a concordar. Tem um sobrinho rico, que mora num prédio chiquérrimo aqui da Cidade Nova, que tem elevador de serviço e dependências de empregada, “com um banheiro que dá três do meu”. Uma das duas empregadas do sobrinho dorme no emprego. Trabalha na casa há mais de dez anos, “já é como se fosse da família”.

Eliane é vizinha, tem 24 anos, e é formada em Ciências Sociais. Socióloga de discurso afiado e cheio de palavras de ordem. É amiga de Dona Sinhá, mas sem a menor obrigação de respeitar suas opiniões de matriarca septuagenária — “Só pelo fato de a pessoa ser mais velha não quer dizer que ela tem razão em tudo”. Com a indefectível canequinha de cachaça e o cigarro, Dona Sinhá nunca fugiu de uma discussão com Eliane. Mesmo quando a moça socióloga diz que esse negócio de “como se fosse da família” é uma hipocrisia, não passa de uma chantagem emocional para prender as domésticas, principalmente as mais velhas, no emprego.

— Ela almoça à mesa com seu sobrinho? Se ela é como se fosse da família, então por que tem banheiro separado, prato, copo e talher separados?

O elevador de serviço e as dependências de empregada já mereceram estudos bem mais complexos. A socióloga faz uma associação entre as dependências de empregada e as antigas senzalas.

— As relações de poder e de exclusão continuam as mesmas. Mesmo quando é tratada como “da família”, a empregada ainda fica enquadrada num patamar de objeto, como se fosse propriedade, sem reconhecimento ou direito…

— É, mas a do meu sobrinho tem televisão no quarto… Daquelas grandes, de não sei quantas polegadas. A imagem é ótima! Tem até um controle remoto…

— Mas tem TV a cabo no quarto dela?

— Não, mas aí também já é demais!

Espectadoras atentas, como eu, do debate, Vilacy e Eredilce se mostram desanimadas. No distante segundo grau, Vilacy ouviu falar da senzala, “onde ficavam os escravos”. Mas tanto ela como Eredilce são brancas, acham que não tem nada a ver com elas, pois os escravos não eram negros? Por isso, em vez de trabalhar como diaristas, dizem que vão tentar emprego num hotel da região, que está arregimentando copeiras, já pensando na famosa Copa do Mundo. A roda ganha mais um participante. É Leonardo, 28, que trabalha de corretor numa imobiliária da região e veio até o prédio, onde há um apartamento para alugar. Diz que “esse negócio de dependências de empregada pode ser uma roubada”.

— E se o patrão quiser cobrar o aluguel? Empregada que dorme no emprego tem que levar em conta que tá ganhando a segurança da família…

— Dormir no emprego não tem nada a ver com segurança; tem a ver com disponibilidade, é a forma que acharam de manter a empregada por perto 24 horas por dia. É só uma estratégia a mais para explorar a empregada — dispara a socióloga.

Nos condomínios de luxo, na Zona Sul da cidade, dependências de empregada, conforme o corretor me assegura, são tão importantes para atrair compradores quanto o número de vagas na garagem. “Há prédios em que há dependências até para três empregados, três quartos, um pra cada um”, diz. A guerrinha entre ele e a socióloga prossegue sem que nenhum dois ceda um passo sequer. As duas empregadas, de currículo impresso no computador das patroas, de quem se dizem principalmente amigas, rumam para o tal hotel que anda arregimentando copeiras. A socióloga, vermelha de raiva, vai tomar o café na padaria, porque “não tem empregada”. O corretor sobre com um cliente, pra mostrar o apartamento que está para ser alugado. Dona Sinhá chama a faxineira do prédio, Wanderléa, e pede que suba até seu apartamento, no segundo andar e traga mais uma dose de pinga e dois cigarros.

— O que o jornal traz aí sobre esse negócio das empregadas?

Passo a Folha de São Paulo, que tem matéria sobre o assunto. Chega a Wanderléa com a canequinha de pinga e os cigarros. Ela e Dona Sinhá são amigas de longa data. Confidentes, camaradas, comadres daquelas que bebem juntas, contam piadas safadas, falam mal do governo, comentam novelas, reclamam dos filhos. Ao fim da tarde, Wanderléa desce até à Avenida Cristiano Machado, onde toma o ônibus para o distante bairro São Bernardo. As dependências de empregada são, de certa forma, sim, um recorte moderno, mas ainda mais cruel e hipócrita das velhas senzalas. Mas o barracão que, todo dia, espera Wanderléa no bairro São Bernardo é o quê?

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.