A maldição do apartamento 301

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Eustaquio02Uma maldição parece ter caído sobre o 301. “Não para ninguém ali”, comentava a faxineira Doralice, olhando o caminhão de mudanças que levava os últimos moradores, uma família muito estranha — pai e dois filhos —, que tinha o hábito de mexer na correspondência dos outros, roubava jornais e revistas e, na saída, danificou paredes, quebrou parte do mármore da escadaria e dos galhos da dama da noite que reinava no jardim. “Esses aí não deveriam nem ter entrado no prédio”, observava dona Sinhá, 72 anos bem vividos, que morava na cobertura dos fundos, desafeta confessa da família que acabava de se mudar. A faxineira Doralice contabilizava: mais de dez inquilinos…

Que mistério era esse que cercava o 301?

A primeira moradora, uma psicóloga solteirona, ficou só alguns meses. Vendeu para uma executiva loura, de elegância duvidosa, divorciada, que tinha um filho pequeno, duas empregadas, um papagaio e três poodles insuportáveis e revendia produtos Avon. Depois veio a personal training, atlética, de riso solto e alto, que descia as escadas aos pulos, como se fosse um canguru no cio. Uma família de portugueses tristes, cheirando a azeite, azeitonas e bacalhoadas, sucedeu a moradora saltitante. Um advogado bom vivant, seguido de um discreto casal de rapazes sarados encerrou o ciclo. Aí, veio a família monstro.

O senhor de óculos de fundo de garrafa, com cara e roupa de pastor protestante, do 304, contava que em diversos edifícios onde já havia morado — “e olha que já morei em muitos, até em Vila Isabel” —, sempre havia problema em um apartamento 301. Problemas, para ‘seu’ Leôncio, o tal que tinha cara de pastor, era qualquer coisa que pudesse ir de encontro à sua rígida concepção de moral. E que, portanto, era que nem uma semente maligna, que necessitava ser extirpada de pronto. Sem anestesia nem nada.

— Em um deles, morava uma desquitada, mulher de comportamento anormal, esquivo, uma decaída, uma doidivanas leviana e despudorada que recebia cavalheiros… No outro 301, uma que era dada à prática de ocultismos, tarôs, magia negra. Consta que incorporava entidades poderosas, vingativas, essas coisas. Dizem que, certa vez, desceu-lhe o espírito de Cleópatra, com a naja e tudo… E houve um que teve como inquilino um pederasta! Ah, mas esse, corremos com ele.

Na verdade, não era bem um pederasta, mas só um jovem negro que tinha a mania de tocar pandeiro e cantar bem alto os grandes sucessos de Renato e seus Blue Caps. ‘Seu’ Leôncio, quase sempre gozava de plateia circunspecta, que o ouvia em silêncio, incapaz de contradizê-lo. Era gente que via nele, talvez por causa do severo terno cinza grafite e da camisa branca abotoada até o colarinho, um homem de respeito, pois o hábito não faz o monge?. Daí que ‘seu’ Leôncio procurava fazer jus à expectativa da pequena e distinta plateia: caprichava na prosopopeia, empostava a voz, munia-se de gestos dramáticos, como se fosse um poeta condoreiro de festas do interior, e mandava brasa!

A última família a deixar o 301, a décima, em um espaço de três anos, era, de fato, singular. Pai e dois filhos. Festeiros. Todo dia, ou melhor, toda noite, havia som alto, barulho de vozes e risadas que varavam a madrugada. Quando era o velho, normalmente às sextas-feiras, boleros e mais boleros enchiam o ar de emoções. Passava da meia noite e os boleros continuavam. Dava para ouvir os casais no dois pra lá, dois pra cá, brindando com cubalibre ou uísque com guaraná. Dona Sinhá e o rapaz do 303 me contaram que alguns travestis costumavam frequentar as festa do apê nas noites de sexta. Ao saber disso, ‘seu’ Leôncio, mais que depressa, se dispôs a tomar medidas para impedir a entrada dos ‘irregulares’ no prédio.

— Isto é uma vergonha!!!

No entanto, nada mudou. O advogado aconselhou: “mexer com ‘esse povo’ só dá merda”. Os filhos continuaram a se retirar discretamente às sextas-feiras, para que o pai pudesse, enfim, dar, digamos, vazão à tardia libidinagem. Os boleros, à luz difusa de um abajur lilás, continuaram embebedando as noites de sexta-feira, para desespero dos demais condôminos. Que fazer? Consultar outro advogado? Deu no mesmo. “Mexer com minorias é fria; ainda mais se tem travesti na parada”. Ao receber a advertência do advogado, ‘seu’ Leôncio também mudou o tom do discurso. “De fato, com esse pessoal nunca se sabe… E eles têm direito à diversão, não é mesmo?”.

Quando se achava, enfim, que os boleros de Luis Miguel e os travestis haviam vencido a guerra, eis que a família monstro, atingida pela maldição do 301, resolve subitamente bater em retirada. Mas deixa um rastro de destruição em seu caminho. Duas semanas depois, eu, síndico, recebo a visita de dois policiais. “Estelionatários! Há várias ordens de prisão contra eles”. Quem diria? Mas a família monstro havia fugido sem deixar vestígios. Não me lembro de quando foi, mas alguns meses depois, me encontro no hall do prédio com dona Sinhá, a do 402, sentada na escada, fumando cigarro sem filtro, lendo jornal e tomando o quinto copo de cachaça. Abre e me mostra a página das notícias policiais: “Trio de estelionatários é preso na Bahia”. Olho a foto e desfaço as dúvidas: são eles! Os dois filhos, cabisbaixos; ao centro, o velho, que desta vez não estava sassaricando na porta da Colombo, encarava a câmera com arrogância. De camiseta escura, com um número bordado à altura do peito: 301. Dona Sinhá havia desenhado um círculo em volta do número.

— É a maldição! Não dou um mês e matam os três na cadeia.

De fato, não deu um mês, foram só duas semanas. Morte horrível, com arma branca, que dizem que é a que mata sem deixar dúvidas, quando o furo é bem feito. Uma briga de nada, por causa de um CD do Luis Miguel, segundo o jornal.
Há dois anos, o proprietário do imóvel tenta, em vão, alugar o apartamento 301… No creo em brujas, pero que las hay, las hay!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Marcelo

    Passo sempre por aqui para ler as crônicas do Sr.Eustáquio.Muito bom.Excelente.

  • Maria Cecília

    Maldição do 301? kkkkkkk Devia se chamar maldição dos vizinhos, que nem sempre são tão bons assim.. Essa história resume bem o que eu gostaria de falar de alguns dos meus..