A casa

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Liquidação

A casa foi vendida com todas as lembranças
Todos os móveis todos os pesadelos
Todos os pecados cometidos ou em via de cometer
A casa foi vendida com seu bater de portas
Com seu vento encanado sua vista para o mundo
Seus imponderáveis
Por vinte, vinte contos.

Carlos Drummond de Andrade.

A casa é o nosso lugar no mundo e representa muito mais do que uma soma de metros quadrados, do que uma determinada técnica construtiva, ou um determinado partido arquitetônico. Ela, inclusive, pode assumir o status de sacralidade através de seu ambiente doméstico, quando este se difere do mundo natural, profano. Há uma transcendência da realidade direta do objeto, ou seja, da edificação em si, o que faz com que assuma uma rica carga simbólica. A casa é um espaço sagrado na medida em que cria um centro, um alívio, uma espécie de abrigo e refúgio para seu morador.

Deve-se pensar, portanto, a forma como o mercado imobiliário, o arquiteto e o cliente entendem a casa. Já que se trata de algo muito maior, algo que será palco de nossas alegrias, tristezas, ambientará nossas conquistas e medos e guardará nossos segredos. Os projetos, entretanto, estão incorporando esta dimensão ontológica da habitação ou apenas estão dispondo do tão conhecido e restritivo “programa de necessidades X pré-dimensionamento”?

Louis, Kahn (2002) sugere que se faça, diante da demanda de um projeto, um programa vivo, que compreenda que a arquitetura é a incorporação do imensurável. Ao projetar uma cozinha, por exemplo, não se deve pensar exclusivamente sobre qual a metragem ideal para a área de fogão, pia, mesa e bancada, mas sim associar a este conhecimento técnico e pragmático os questionamentos relativos ao uso e significado deste ambiente, à importância dele para as pessoas da família e às atividades que de fato se desenvolverão ali.

As casas, contudo, estão cada vez mais parecidas, o que acaba por nos revelar que praticamente não há estudo personalizado para cada cliente, ao contrário, na maioria das vezes os projetos tratam a habitação como se houvesse apenas um estilo de viver, um único homem, uma única forma de se apropriar dos espaços. Certamente isto se deve a uma visão que não se estende às questões filosóficas e antropológicas da habitação.

Outro fator que compõe esta cena de superficialidade é o modismo, introduzido no mercado e imposto ao cliente como se representasse a única possibilidade, a única chance de se mostrar bacana e bem informado. Você precisa ter a cadeira tal, precisa ter o sofá X, precisa morar naquele lugar da cidade. Você precisa se encaixar nesse molde, nessa receita de bolo até que ao abrir mão tantas vezes do que pensa se perca e se transforme no HOMEM-TIPO, no homem padrão.

A casa é o seu direito de ser sujeito do espaço. Jamais se esqueça disso!
A casa é o seu direito de ser sujeito do espaço. Jamais se esqueça disso!

O mais incrível é que não nos damos conta do quanto perdemos a identidade, do quanto abrimos mão de escolhermos o nosso próprio jeito de morar. Qual é afinal o seu jeito de usar a casa? Como, por exemplo, você usa a sala de jantar? Quantas pessoas e com qual frequência se sentam à mesa de doze lugares e fazem suas refeições juntas? E a cozinha? Aliás, você cozinha? Quais são as suas referências estéticas? Pergunto as suas e não as da moda, as da revista. É exatamente esta a questão a se trazer à luz do debate: o seu direito de ser sujeito do espaço, de imprimir de fato a sua cara e as suas vivências na casa.

É necessário arriscar-se, sair do lugar comum e assumir que ao compreendermos as diferentes formas de se apropriar do espaço e as distintas referências estéticas e culturais, os projetos residenciais serão muito melhores, pois estarão livres de preconceitos e verdades absolutas. Quando percebermos que a estandardização dos padrões é uma das maneiras mais cruéis de repressão e que limita a criatividade e a naturalidade, nos afastaremos das imposições feitas pelos modismos, pela especulação imobiliária ou pela leitura superficial do significado da casa na vida do homem.

Não podemos, por necessidade de se encaixar em padrões sociais que são criados para beneficiar a poucos e que normalmente são superficiais e preconceituosos, delegarmos a outro a escolha de como será a nossa casa.  Nossos “imponderáveis”, como diz Drummond, não podem nunca ser esquecidos ou renegados em função de um preciosismo estético tolo. Não importa tanto, por exemplo, se “aquele” móvel antigo ainda está na moda, mas o que ele representa na vida da família e quais histórias ele conta. O arquiteto é fundamental neste processo no momento em que auxilia o cliente a se questionar sobre suas verdades, seus anseios e suas expectativas e transforma este universo de ideias em proposição formal, ou seja, no projeto arquitetônico.

Vale a pena lançarmos mão do nosso poder de crítica e avaliarmos o quanto estamos nos submetendo a padrões impostos imperativamente. O homem vai estabelecendo relações com o mundo e é através delas que é capaz de dizer a ele mesmo e ao outro quem é e o que pensa. A casa é, sem dúvida, uma possibilidade de fala, uma voz capaz de revelar muitas coisas sobre aqueles que nela habitam. Não é necessário que se faça, vista, pense e more como o senso comum impõe, sempre haverá escolha desde que nós mesmos nos reservemos este direito.

Estela Netto é arquiteta formada pela PUC Minas, especialista em História da Cultura e da Arte. Atua no mercado de arquitetura e design com projetos residenciais e comerciais.

Estela Netto Arquitetura & Design
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