A casa das mulheres ricas

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Sempre tive curiosidade de saber quem é, realmente, o público dos programas da Sônia Abrão, da Cristina Rocha ou da Márcia Goldsmith. Por causa do horário, imaginei que fosse na maioria, de donas de casa. Não todas, claro. Ou, então, conformados aposentados, gente com tempo de ficar o dia inteiro em casa e, com certeza, não tem TV a cabo. Fui procurado, há dias, por um instituto de pesquisas, para saber o que eu assistia durante a tarde. Perguntaram se eu via os programas populares que dominam o horário vespertino da TV. Comentei isso com minha empregada, cada vez mais bem informada, que não só assistiu o interrogatório do pesquisador, como também deu vários palpites. Dela, fiquei sabendo, por exemplo, que pelo menos duas dessas apresentadoras — Sônia e Cristina — estão, sim, na TV a cabo. E em canais de alta definição.
— Mas são programas de baixaria — apressou-se a me informar minha diligente secretária —, desses que só entrevistam gente pobre e feia. Não tem um dia que não tem um barraco.
Em seguida, me contou que, atualmente, “o melhor programa que tem na televisão é o das mulheres ricas, que passa na Bandeirantes, toda segunda-feira”. E bem tarde da noite. Confesso que tomei o maior susto. Contei pra ela que há diversas histórias sobre essas mulheres, e que uma delas se divertia atirando ovos lá da janela de seu apartamento, no povo que passava na rua. Parte da laboriosa classe C emergente, minha secretária não se abalou. Ao contrário, disse que, no momento, quer remobiliar a casa. E já decidiu que quer móveis iguais aos da casa da Val Marchiori, uma das mulheres ricas, que ela viu no programa da Band.
— O quê que tem de diferente nesses móveis?
— Ah, é tudo dourado. Até a samambaia dela é dourada!
Para manter a discussão no mesmo nível, tive que assistir ao programa. Duas vezes. No primeiro, as peruas estavam em Buenos Aires, passeando pelo Caminito e torrando uma grana preta no Puerto Madero. No segundo, em São Paulo, comprando cachorros — só um carrinho pra cachorros, comprado por uma delas, custava a bagatela de 800 pratas. Depois, compraram sapatos e beberam champanhe adoidado. As casas se parecem com essas casas de gente rica que a gente vê nas novelas da Globo. Aquela coisa duvidosa, com escadarias, neons, flores de acrílico, um troço bem nouveau riche. Ponderei que ia ser difícil encontrar aquela tralha nas Casas Bahia, mas minha secretária estava, além de determinada, muito mais bem informada que eu.
— Quem falou nas Casas Bahia?
Em seguida, me mostrou vários folders de uma lojinha lá do Primeiro de Maio, onde era possível dourar ou pratear tudo, inclusive a coitada da samambaia. Esta receberia uma tinta metálica, que certamente a mataria dias depois, mas garantiria, pelo menos por algumas breves semanas, o mesmo efeito decorativo da casa da Valdirene, quero dizer, da Val Marchiori.
Mostrei um desses folders para minha amiga Luciana Alba, dona de loja de decoração, mulher de um bom gosto a toda prova, que ficou assustada.
— Será que vamos ter que enfrentar a volta dos decapês?
“Decapês”, me ensina Luciana, “eram aqueles garrafões de cinco litros de vinho barato, recobertos com gesso e uma overdose de tintas prateadas e douradas, que foram moda nos anos de 1950”.
— Aquilo é a coisa mais infame e cafona que já se fez contra o bom gosto da humanidade.
Enquanto virava e revirava o folder da lojinha, foi lá no finalzinho que ela acabou fazendo uma descoberta pra lá de interessante? A loja era parte de uma rede, que incluía ainda um tipo de imobiliária, a Imobiliária Ferreirinha, especializada em alugar barracões, mas “a única que garante a você a sensação de estar na casa das mulheres ricas”.
Bem feito! Quem mandou não levar o Joãozinho Trinta a sério?

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.